Stefani Reynolds/Pool via EFE/EPA
Stefani Reynolds/Pool via EFE/EPA

Análise: Impeachment como fiel da balança

Problema político herdado por Biden não é menor do que os da área econômica e social

Rubens Barbosa*, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

O discurso de posse de Joe Biden refletiu a prioridade de união e reconciliação, no momento em que o país se encontra mais dividido desde a Guerra Civil. Nos últimos 30 anos, o país, branco e calvinista, transformou-se em uma nação multicultural e multirracial. A divisão deixou de ser apenas política, entre os partidos Democrata e Republicano, trazendo um processo de polarização racial, religiosa e social com ações cada vez mais radicais. Esse é o pano de fundo dos desafios que Biden terá de enfrentar. 

O sucesso na crise da pandemia será crucial para a agenda da economia nos primeiros dias de governo. Os problemas de saúde e econômicos serão enfrentados pelo anunciado pacote de US$ 1,9 trilhão que procurará acelerar a vacinação, melhorar o sistema de saúde e injetar recursos emergenciais para os mais afetados. O objetivo declarado é a volta do crescimento (3% a 4% ante -4,3% em 2020), a redução do desemprego (7,6%) e da desigualdade de renda e a aceleração das obras de infraestrutura. A política de reconstrução da economia passa pela criação de postos de trabalho bem pagos (prevê-se o aumento do salário mínimo para US$ 15 por hora), pelo combate às mudanças climáticas e pela promoção da igualdade racial, além do apoio ao setor industrial com uma política de substituição de importações (Buy American) que pode se chocar com a OMC.

Outro desafio inicial será desfazer as políticas internas e externas adotadas por Trump com grande efeito negativo, como o negacionismo no combate à covid-19, as restrições à imigração e às políticas energéticas e de meio ambiente. 

O problema político herdado por Biden não é menor do que os da área econômica e social. Sem falar nos da política externa e da China. Embora os democratas tenham o controle da Câmara e do Senado, o Partido Republicano vai repetir – se não reforçar – a obstrução às medidas propostas pelo novo governo, sobretudo nas áreas de saúde (Obamacare), racial, imigração e meio ambiente. Por outro lado, terá de lidar com o grupo mais progressista dentro do Partido Democrata (Bernie Sanders e Elizabeth Warren). 

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A questão imediata vai ser como lidar com o demorado exame da proposta de impeachment no Senado, o que poderá dificultar a aprovação do programa do novo governo. Não há certeza dos votos de 17 senadores republicanos para completar o processo. Se não tivesse havido a insurreição contra o Congresso, com seus 74 milhões de votos, Trump seria o líder natural da oposição, apesar de tudo. Com a divisão do Partido Republicano, o establishment conservador se encarregará de impedir que ele possa se apresentar como candidato em 2024. Interessará a Biden ter um mártir nacional populista, com direitos políticos ou não, encabeçando a oposição, visto que o afastamento da figura polarizadora não apagará a polarização e a divisão?

* FOI EMBAIXADOR DO BRASIL NOS EUA E É  PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR (IRICE)

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