Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Análise: Impeachment pode ser positivo para presidente dos EUA

Cenário de destituição é perfeito para Trump, homem do espetáculo; absolvição é resultado mais provável no Senado

Sebastian Smith*, France Presse

19 de dezembro de 2019 | 07h00

Nada é pior para um presidente dos EUA do que ser submetido a um julgamento político, a não ser que ele se chame Donald Trump. Sem dúvida, o fato de se tornar o terceiro na história julgado no Congresso é uma lástima do ponto de vista pessoal. O magnata é obcecado por sua imagem, mais do que qualquer outro que já passou pela Casa Branca. Seu nome é uma marca que vale milhões de dólares.

Mas, por outro lado, o republicano adora uma briga. E o impeachment é a Olimpíada dos confrontos em Washington. “O momento é para uma pessoa como ele”, disse Rich Hanley, professor de comunicação da Universidade de Quinnipiac. A destituição deve virar absolvição no Senado, um resultado tão previsível como um desses combates absurdos de luta livre que Trump adora. O cenário perfeito para um homem do espetáculo.

Em primeiro lugar, Trump pode demonizar seus oponentes, usar termos como “traição”, “louco” e “doente”. E, depois, transformar todo o caso em um elemento de campanha em 2020. Desde Andrew Johnson, que foi acusado em 1868, nenhum presidente desfrutou exatamente da visibilidade no processo de impeachment. Richard Nixon renunciou antes de ser acusado e Bill Clinton lutou para evitar ser condenado, em 1999.

Mas Trump, veterano em escândalos, está pronto para ser colocado à prova. Afinal, ele já saiu ileso de acusações de abuso sexual e outros comportamentos indevidos por mais de uma dezena de mulheres ao longo dos anos. Resistiu a uma investigação que durou dois anos sobre conluio com os russos na eleição de 2016. E escapou de acusações de uso do cargo em benefício do seu império imobiliário, incluindo a de alojar militares em seu campo de golfe na Escócia, além de seu vice-presidente, Mike Pence, em seu resort na Irlanda.

Diariamente, ele insulta seus rivais, diz palavrões em público e conta tantas mentiras e exageros que os jornalistas mal conseguem acompanhar seu ritmo. E a lista continua. Como ele próprio afirmou, em 2016, “poderia atirar em alguém na Quinta Avenida e não perderia nem um voto sequer”.

O julgamento político de Clinton, decorrente de sua aventura sexual com uma estagiária da Casa Branca, foi desagradável: um programa de terror televisionado que manchou para sempre a reputação do presidente democrata. Mas tudo isso parece algo quase inocente comparado com o processo de Trump, intensificado pelo Twitter, uma cobertura de TV politizada e um presidente ansioso para protagonizar, produzir e dirigir o próprio drama.

Longe de se acovardar, Trump realiza comícios para mobilizar sua base, denunciando o processo como uma “caça às bruxas”. No Twitter, manifesta indignação dezenas de vezes por dia. “Nixon e Clinton se mantiveram à margem. Trump interferiu em diversas ocasiões”, disse Allan Lichtman, professor de história na American University.

“É uma tática de alto risco e grandes ganhos. Depois de desobedecer a todas as regras, agora Trump vem agindo da mesma maneira no impeachment”, disse Lichtman. “Ele deixa o partido sem outra opção, a não ser defendê-lo até o fim.”

A verdadeira razão pela qual os republicanos precisam defender Trump é que a única coisa que lhes resta é Trump. “O impeachment é algo muito triste para o país”, disse o presidente, na semana passada. “Mas parece ser muito bom para mim politicamente.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É jornalista

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