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Análise: Imunização aumenta, mas pandemia está longe de terminar

Análise: Imunização aumenta, mas pandemia está longe de terminar

Em muitos países, os casos estão aumentando – de novo. De acordo com algumas métricas, está pior do que nunca

Adam Taylor / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2021 | 05h00

Depois de mais de um ano de pandemia, as coisas estão mudando. As campanhas de vacinação avançam rapidamente em algumas nações ricas e a chegada do clima quente da primavera no norte cria a sensação de um novo começo. A maré implacável de más notícias e estatísticas angustiantes foi empurrada das primeiras páginas para dar lugar a manchetes sobre famílias reais em crise e navios imensos atolados na areia. Mas a pandemia está longe do fim.

Em muitos países, os casos de coronavírus estão aumentando – de novo. De acordo com algumas métricas, está pior do que nunca. Globalmente, o número de novos casos está se aproximando do pico atingido em janeiro. Na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, fala-se de mais uma onda – o que talvez seja um nome impróprio: como uma nova onda pode começar se a anterior nunca chegou a acabar?

Nos Estados Unidos, apesar de uma das campanhas de vacinação mais bem-sucedidas do mundo, os casos voltaram a aumentar. Na segunda-feira, durante uma reunião virtual sobre saúde na Casa Branca, Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), admitiu que estava “com medo” do rumo que as coisas estão tomando. Walensky disse que precisava falar sobre o “meu sentimento recorrente de desgraça iminente”.

Um grande número de nações europeias está enfrentando seus próprios surtos, em parte por causa da lentidão das vacinas e da propagação de variantes. “Se não agirmos agora, vamos perder o controle”, disse o presidente francês Emmanuel Macron, ao anunciar restrições nacionais na quarta-feira.

Na Índia, onde os casos vinham caindo drasticamente havia meses, um novo aumento está causando um embate entre vírus e vacina. “Dá para ver o maremoto chegando”, disse Bhramar Mukherjee, bioestatístico da Universidade de Michigan que faz modelos do surto na Índia, ao Washington Post na semana passada.

E ainda tem a América Latina, onde muitas nações estão ficando para trás nas vacinações. No Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro minimizou a gravidade do vírus desde os primeiros dias da pandemia, a onda fora de controle veio acompanhada por uma crise política: ministros e líderes militares tiveram uma saída caótica do governo esta semana.

“Neste momento, o Brasil está sob o reinado da escuridão”, disse Rubens Ricupero, veterano diplomata brasileiro, ao Guardian.

O vírus tem o hábito de se aproximar sorrateiramente. Nós estávamos nos distraindo com muitas notícias boas. Quase todas as informações sobre a eficácia das vacinas foram positivas. No Reino Unido, que já foi um dos países mais atingidos pelo coronavírus, as medidas parecem estar dando certo: no domingo, não houve registro de mortes por covid-19 em Londres pela primeira vez em seis meses.

Mas, de certa forma, essas boas notícias são parte do problema. Depois de um ano de restrições, frustração e miséria, a luz no fim do túnel pode ser avassaladora e a tentação de voltar ao normal, irresistível. Em países onde as vacinações estão indo bem, as doses por si só não acabaram com a doença.

No Chile, um dos poucos campeões de vacinação na América Latina, mais de 6 milhões dos 18 milhões de habitantes foram vacinados. Mas, ao mesmo tempo, houve um aumento nas infecções que ameaça sobrecarregar o sistema de saúde, com um registro de 7.626 novos casos de coronavírus em um único dia na semana passada. As variantes mais infecciosas encontradas pela primeira vez no Reino Unido e no Brasil foram encontradas no país.

Especialistas em saúde dizem que as medidas do governo para aliviar as restrições, entre elas a criação de um sistema de autorização para as férias de verão em janeiro e a reabertura de academias, igrejas e escolas semanas depois, contribuíram para o aumento. O país anunciou novas medidas de lockdown neste fim de semana.

“Ninguém questiona que a campanha de vacinação é uma história de sucesso”, disse Francisca Crispi, presidente regional da associação médica do Chile, ao New York Times. “Mas ela transmitiu uma falsa sensação de segurança às pessoas, que sentiram que, como todos nós estamos sendo vacinados, a pandemia acabou."

A pandemia ainda não acabou, mas, se tivermos sorte, talvez estejamos vendo o começo do fim. Já se foi a grande incógnita de março de 2020, mas a disseminação de variantes significa uma corrida contra o tempo para a vacinação na maioria dos países – uma corrida que muitas nações correm o risco de perder.

“Agora temos um suprimento incomparável de vacinas surpreendentemente eficazes sendo aplicadas num ritmo incrível”, escreveu Zeynep Tufekci para a Atlantic nesta semana. “Se agirmos rapidamente, esse aumento pode ser apenas um repique para os Estados Unidos. Mas, se avançarmos muito devagar, mais pessoas serão infectadas por esta terrível nova variante, que é extremamente perigosa para aqueles que ainda não foram vacinados."

Historicamente, as pandemias nem sempre terminam bem. Os historiadores ainda hoje discordam sobre exatamente como e quando a grande pandemia de gripe de 1918 acabou de verdade.

“Alguns argumentam que ela infectou uma parcela suficiente da população para gerar uma barreira de imunidade natural”, escreveu Anna Gross em um ensaio para o Financial Times no início deste mês. “Outros dizem que o vírus sofreu uma mutação e se tornou menos mortal com o passar do tempo. De qualquer forma, surtos intensos persistiram em todo o mundo até 1922”.

Geralmente, as doenças tendem a desaparecer em vez de se extinguir. A varíola, uma das únicas pandemias a ter sido derrotada pelo esforço humano, foi erradicada após uma exaustiva campanha de vacinação global que durou 13 anos e que, algumas vezes, exigiu esforços coercitivos, observa Gross.

O cenário mais provável é que o pior da pandemia do coronavírus já tenha passado, mas que o vírus perdure em nossas vidas. Como disse à Atlantic o médico e escritor James Hamblin, a covid-19 talvez já tenha acabado, mas agora foi substituída por uma sucessora que podemos chamar de covid-21. “É a doença que vamos encarar nos meses e anos por vir”, escreveu Hamblin na semana passada.

Enquanto discutimos para ver como a pandemia irá terminar, o debate sobre como ela começou ainda não foi resolvido. Esta semana, descobertas inconclusivas de uma investigação da Organização Mundial da Saúde sobre as origens do vírus na China geraram novas críticas sobre a maneira como Pequim o manejou nos primeiros dias e alegações defensivas das autoridades chinesas.

Grande parte do debate se concentrou nas controversas teorias sobre um vazamento de laboratório. Mas, de certa forma, este talvez seja o cenário mais tranquilizador. Se o vírus saltou de animais para humanos na natureza, possivelmente devido à rápida urbanização na China, a grande preocupação é que um coronavírus semelhante possa se espalhar para humanos da mesma forma nos próximos anos.

Como o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, indicou esta semana, ainda precisamos de mais trabalho. “Este relatório é um começo muito importante, mas não é o fim”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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