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ANÁLISE: Índia e Paquistão podem não ir à guerra. Mas a crise se intensifica

Troca de agressões entre as duas potências nucleares, as primeiras após mais de cinquenta anos, podem se intensificar se não forem controladas a tempo

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 05h00

A tensão entre a entre Índia e o Paquistão aumentaram. O impulso para os ataques aéreos indianos foi um ataque terrorista em 14 de fevereiro que matou 40 membros da força policial paramilitar da Índia na Caxemira. O Jaish-e-Muhammad, grupo militante extremista com sede no Paquistão, assumiu a responsabilidade pelo que foi o ataque mais letal no estado insurgente em mais de três décadas. Embora definido como uma organização terrorista pelos Estados Unidos, o grupo tem autorização para operar dentro das fronteiras do Paquistão e acredita-se que receba apoio de elementos do establishment militar paquistanês, que cultivou por muito tempo representantes islâmicos para defender seus interesses na região.

Para a Índia, que enfrentou uma sucessão de ataques terroristas ligados ao Paquistão em seu território, o ataque na Caxemira pareceu com a travessia de uma linha vermelha. E com eleições nacionais próximas, o primeiro-ministro Narendra Modi percebeu uma oportunidade de promover sua imagem de falcão e satisfazer as demandas disseminadas de vingança transmitidas nas redes sociais e nos agitados canais de TV a cabo do país. “Hoje sinto um fervor na multidão”, disse ele em um comício na tarde de terça-feira. “O país está seguro.”

Por um tempo, ainda havia esperança de que as tensões diminuíssem. As autoridades indianas alegaram que o seu ataque “preventivo” aos militantes foi um sucesso, enquanto autoridades paquistanesas negaram qualquer dano real. Ikram Sehgal, um analista de defesa ligado aos militares do Paquistão, disse ao New York Times que a resposta paquistanesa seria “avaliada”. Ele enfatizou que “a única questão é saber se a liderança da Índia será capaz de aguentar e se entraremos no perigoso território de nova escalada."

Mas é difícil ver como a Índia poderá recuar agora, especialmente porque o nacionalismo exacerbado se abastece da opinião popular em ambos os lados da contestada fronteira. Na quarta-feira, a mídia por cabo paquistanesa aderiu a um surto de triunfalismo. “Músicas de guerra foram tocadas, comentaristas elogiaram as forças armadas do Paquistão e gritos de ‘Deus é o maior’ foram ouvidos”, relataram meus colegas. “Imagens de um avião indiano com os restos em chamas foram transmitidas repetidamente."

A capacidade da Força Aérea da Índia de se aventurar profundamente no Paquistão foi um golpe simbólico para o exército paquistanês, que exerce enorme influência na política do país e tem o domínio significativo sobre público paquistanês. O ataque também estabeleceu um novo precedente: “Este novo modelo para a reação indiana criará um clamor público na Índia após cada incidente de terrorismo, para punir o Paquistão”, escreveu Sushant Singh, vice-editor do Indian Express. Esse clamor pode ser ouvido mais uma vez na quarta-feira.

Mas com a escalada das tensões, o Paquistão enfrenta a maior parte do escrutínio. Enquanto o mundo acordava com as notícias de uma transgressão indiana sobre a soberania paquistanesa, poucos governos saíram em defesa de Islamabad. Embora preocupados com a cúpula do presidente Trump no Vietnã com o líder norte-coreano Kim Jong-un, altos funcionários dos EUA já haviam dado sinais de sua impaciência com o Paquistão. Depois do ataque de 14 de fevereiro, o conselheiro de segurança nacional John Bolton disse que apoiava “o direito de autodefesa da Índia”. Uma declaração da União Europeia pedia a recuo da escalada, mas não condenava a ação da Índia. Até mesmo a China, supostamente uma firme aliada do Paquistão, manifestou apenas um apelo por “contenção”.

“Isso deve deixar o Paquistão muito desapontado, porque teria esperado que seu amigo mais confiável fizesse uma condenação direta da Índia”, escreveu o veterano jornalista indiano Shekhar Gupta. “Mas é um mundo novo, sem paciência para o terror como instrumento de política.”

“É assustador ver como poucos estão dispostos a aceitar o argumento paquistanês, condenar a Índia ou adotar uma abordagem ‘de ambos os lados’”, escreveu Tanvi Madan, da Brookings Institution, em um e-mail para o Today’s WorldView. Ela notou que os paquistaneses "poderiam esperar que as negociações de paz em curso no Afeganistão tivessem limitado as críticas dos EUA ou resultassem em apelos dos americanos pela contenção indiana na semana passada” - o tipo de reações que ocasionalmente vêm de Washington durante períodos se igual tensão. Desta vez, porém, “nenhuma dessas coisas aconteceu”, escreveu Madan.

Ainda assim, Madan disse que estava “cética” de que a atual situação “levaria a mudanças fundamentais”. Isso requer uma avaliação muito mais profunda do Paquistão sobre as perspectivas de seus militares, uma estimativa que provavelmente só aconteceria se Islamabad estivesse sujeita a uma campanha de pressão internacional. Dada a importância estratégica do Paquistão para uma série de grandes potências - de Washington a Riad e Pequim - o verdadeiro isolamento diplomático não é provável.

O ataque na Caxemira teve “a clara intenção” de instigar Modi a entrar em ação, ante as eleições que se aproximam, escreveu Christine Fair, especialista em geopolítica do sul da Ásia na Universidade de Georgetown. “Não se engane: os interesses mais profundos de estado do Paquistão serão melhor atendidos por uma vitória de Modi, que no momento é incerta”, acrescentou.

As animosidades atuais podem apresentar um caminho para a vitória do governo nacionalista hindu de Modi, cujas políticas divisionistas, argumentou Fair, “forneceram aos vários representantes islamistas do Paquistão abundantes oportunidades de recrutamento”.

Outros especialistas sugerem que a Índia também precisa reexaminar suas próprias políticas. Nisid Hajari, da Bloomberg View, apontou para a resposta “exagerada” do governo de Modi à crescente agitação na Caxemira, onde uma geração de homens muçulmanos tem sido brutalizada pelas forças de segurança. “Tratar tais cidadãos indianos - e qualquer um que fale por eles - como ameaças à segurança nacional só aumenta a possibilidade de militantes baseados do Paquistão se intrometerem no Estado”, escreveu Hajari. /Tradução de Claudia Bozzo

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