Mauricio Torres/EFE
Mauricio Torres/EFE

Análise indica que número de mortos no Equador é 15 vezes maior que oficial

Segundo estudo dos dados de mortalidade feito pelo ‘New York Times’, cerca de 7,6 mil pessoas morreram a mais no país entre 1º de março e 15 de abril em comparação com média dos anos mais recentes

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 04h00

Com corpos abandonados nas calçadas e empilhados às centenas em necrotérios, está claro que o Equador foi devastado pelo coronavírus. Mas a epidemia é ainda pior do que muitos acreditam. A mortalidade no Equador durante o surto foi 15 vezes maior do que o número oficial de mortes causadas pela covid-19 informado pelo governo, segundo uma análise dos dados feita pelo New York Times. 

Os números indicam que o país está sofrendo um dos piores surtos do mundo. São números que apontam para o sombrio estrago que o vírus pode causar nos países em desenvolvimento, onde os casos logo sobrecarregam o sistema de saúde e até a capacidade do governo de contar quantos sucumbem à doença.

“Havia pessoas morrendo nas portas das nossas clínicas e não havia como ajudá-las”, disse Marcelo Castillo, diretor da unidade de terapia intensiva de um hospital particular. “Mães, maridos, gente implorando por um leito porque ‘Você é médico e precisa nos ajudar’.”

Um número muito maior de pessoas – cerca de 7,6 mil a mais este ano – morreram no Equador entre 1.º de março e 15 de abril em comparação à média dos anos mais recentes, segundo análise do registro oficial de óbitos feita pelo Times.

Esse crescimento contrasta muito com o número de mortes atribuídas oficialmente pelo governo ao coronavírus: 503 pessoas até 15 de abril. Os dados de mortalidade no meio de uma pandemia são inexatos e podem ser revistos. As mortes adicionais incluem os casos de covid-19 e também outras causas, incluindo pessoas que não foram admitidas para tratamento nos hospitais lotados com pacientes do coronavírus. 

No entanto, os dados apontam para uma alta imensa e súbita nos óbitos. Morreram três vezes mais pessoas que o habitual no Equador nas primeiras duas semanas de abril, quando o número de doentes alcançou um pico. O governo equatoriano, que também enfrenta a pior crise econômica em décadas, reconheceu, no início da pandemia, que os números oficiais de mortos estavam muito aquém da realidade.

Houve uma alta acentuada nas infecções na província que inclui a capital econômica do Equador, Guayaquil, onde os moradores teriam se contaminado depois de trazerem o vírus de visitas à Espanha.

Em Guayaquil, as fatalidades durante as duas primeiras semanas de abril foram oito vezes mais numerosas que o habitual, de acordo com os dados – aumento muito maior do que o observado em Nova York, onde o número de óbitos foi quatro vezes maior que o habitual nas semanas mais recentes.

Mistério

Em questão de semanas, após a detecção do primeiro caso em Guayaquil, os hospitais ficaram superlotados e o serviço funerário entrou em colapso sob o peso da demanda, deixando cadáveres nas ruas.

A onda de mortes é ainda mais perturbadora por ser impossível de explicar. “Não há razão óbvia para a devastação no Equador ser tão pior que em outros países. Sua população é relativamente jovem e a maioria habita áreas rurais, fatores que deveriam reduzir o risco”, disse a demógrafa Jenny Garcia, que estuda a América Latina no Institut National d’Études Démographiques, da França. Esse mistério se reflete nas consequências desiguais da pandemia em todo o mundo, levantando questões que ninguém ainda sabe responder. / NYT, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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