Mikhail Klimentyev/Sputnik / AFP
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Análise: Interessa à Rússia salvar Lukashenko, aquele que a esnobou?

As rachaduras nos laços comumente estreitos entre Bielo-Rússia e Rússia começaram no fim do ano passado, depois que Lukashenko resistiu à pressão do Kremlin para os dois países formarem um Estado unificado – como concordaram em 1999

Isabelle Khurshudyan / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 04h00

Com os protestos pedindo a sua derrubada, diante de uma greve de trabalhadores das principais fábricas, empresas e da televisão estatal, Alexander Lukashenko pediu socorro no fim de semana. Afirmou que precisava falar com urgência com o presidente russo, Vladimir Putin. A solicitação foi atendida com telefonemas entre os dois no sábado e ontem. Mas a oferta de intervenção russa, aparentemente, está limitada à resposta a uma ameaça militar externa. Depois de Lukashenko recusar durante meses laços mais estreitos com a Rússia, o apoio de Putin não está garantido. 

As rachaduras nos laços comumente estreitos entre Bielo-Rússia e Rússia começaram no fim do ano passado, depois que Lukashenko resistiu à pressão do Kremlin para os dois países formarem um Estado unificado – como concordaram em 1999. Moscou tentou usar um antigo acordo de venda do petróleo a preços amigos a Minsk como alavanca. Quando em dezembro os dois países não concordaram com um novo preço, a Rússia suspendeu o fornecimento.

Depois disso, a retórica negativa de Lukashenko em relação à Rússia se intensificou. Ele atacou um jornalista da televisão estatal russa que criticou a maneira como ele tratou a pandemia do coronavírus (o bielo-russo prescreveu vodca, hóquei e sauna).  Nas semanas que antecederam a eleição, Lukashenko sugeriu a existência de um complô russo para derrubá-lo. Chegou a prender mais de 30 russos, acusados de serem mercenários pertencentes ao obscuro grupo russo Wagner. 

Lukashenko alegou que os homens haviam sido enviados com a finalidade de desestabilizar o país, mas analistas de segurança afirmaram que provavelmente eles estavam usando Minsk como escala para chegar até a África, uma prática comum. Em um gesto para Moscou, os supostos mercenários foram soltos na sexta-feira.

Valery Tsepkalo, destacada figura da oposição que deixou a Bielo-Rússia depois de ter sido impedido de candidatar-se às eleições, afirmou que Lukashenko estava “blefando” a respeito dos mercenários e agora faz o mesmo ao sugerir uma possível intervenção militar russa em sua ajuda. 

Como Lukashenko declarou que os recentes protestos seriam chefiados por agentes estrangeiros, e acrescentou que “tropas da Otan estão rastejando perto das nossas portas”, imagina-se que ele tente usar isso como a ameaça externa que justificaria o apoio da Rússia.

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Segundo Artyom Shraibman, da Sense Analytics, uma empresa de consultoria política de Minsk, o temor de uma ação russa uniu o regime e a oposição na semana passada. A anexação da Crimeia pela Rússia, afinal, ocorreu na esteira da revolução de Maidan na Ucrânia, que derrubou o então presidente favorável à Rússia. 

“Não está claro como a Rússia se comportaria, mas uma ocupação no verdadeiro estilo militar seria extremamente dispendiosa nestas circunstâncias, porque a Bielo-Rússia não é a Crimeia”, acrescentou. “O povo da Bielo-Rússia não quer fazer parte da Rússia, nem ser ocupado pela Rússia. Logo, haveria um grande derramamento de sangue. E tentar fortalecer autoridades internamente fracas também seria muito complicado.”

Margarita Simonyan, a editora-chefe do veículo de propaganda russo RT, escreveu no Twitter na sexta-feira: “Está na hora de pessoas educadas restaurarem a ordem como somente elas sabem fazer”, em referência aos soldados russos despachados para a Crimeia há seis anos. 

Mas Moscou não age automaticamente em resposta a todas as revoluções ao longo de suas fronteiras. Ficou de fora da Armênia, em 2018, e do Quirguistão, em 2010. Em parte, isso ocorreu porque, como neste movimento bielo-russo, não havia sinais de um sentimento contra o Kremlin entre manifestantes ou oposição. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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