Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Análise: Irã está colocando o 'louco' Trump à prova

O que aconteceria se alguém aceitasse o blefe do presidente americano e criasse uma crise real

Aaron Blake / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2019 | 05h00

Em 2017, o general David Petraeus foi questionado sobre a irracional e volátil política externa do presidente Donald Trump. É uma abordagem que alguns têm comparado à “teoria do louco”, segundo a qual uma pessoa faz com que outros países acreditem que ela seja capaz de qualquer coisa, como um meio de mantê-los sob controle e conquistar concessões.

Petraeus disse que a estratégia pode funcionar. Mas ele também observou que ela traz uma desvantagem desproporcional.

"Pode ser que haja, de novo, algum mérito na ‘teoria do louco’ - até você entrar em uma crise”, disse ele. “Você não quer que o outro lado pense que você é irracional em uma crise. Você não quer que o outro lado ache que você pode ser suficientemente irracional para realizar um primeiro ataque ou fazer algo, você sabe, o chamado ‘impensável’”.

O crescente impasse entre os Estados Unidos e o Irã está fornecendo um campo de testes exclusivo para essa faceta da política externa de Trump. Embora Trump tenha usado indiscutivelmente a estratégia do “louco” com alguma eficácia no cenário mundial, a questão sempre foi o que aconteceria se alguém aceitasse o blefe e criasse uma crise real.

E o Irã pode estar tentando fazer exatamente isso.

Noticiou-se ontem que o Irã havia abatido um drone de vigilância dos EUA perto do Estreito de Ormuz. As duas partes concordam que foi isso que aconteceu, embora discordem quanto ao fato de o drone estar no espaço aéreo iraniano. A provocação acontece logo depois que o governo dos EUA culpou oficialmente o Irã por dois ataques a petroleiros no Golfo de Omã, e depois de o Irã ter afirmado que em breve ultrapassaria os limites do enriquecimento de urânio do acordo nuclear de 2015, do qual Trump retirou os Estados Unidos.

Trump respondeu dizendo de forma sucinta: "O Irã cometeu um grande erro!"

Trump, nos últimos dias, realmente colocou o pé no freio ante a ideia de um possível confronto armado. Em uma entrevista à revista Time, ele chamou os ataques aos petroleiros de “pouco significativos”. Ele argumentou que tais coisas não mereceriam o envolvimento dos EUA, porque os interesses americanos não estão realmente em jogo.

Trump fez alguns novos comentários na quinta-feira, que mais uma vez parecem sugerir uma resposta menos agressiva. 

Aparecendo na Casa Branca com o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, ele disse duas vezes que pode ter sido um “erro” da parte do Irã, literalmente. Ele disse: “Acho difícil acreditar que tenha sido intencional” e sugeriu que foi alguém “irresponsável e estúpido que fez isso”.

Quando lhe perguntaram como ele responderá, Trump disse: “Vocês descobrirão".

Para um presidente cuja conversa dura sobre o Irã remonta a décadas, tudo isso é bastante incongruente. Um cético poderia dizer que ele recuou diante das provocações do Irã. Talvez seja apenas uma tática para continuar em busca do imprevisível.

Seja como for, o Irã parece querer testar Trump e ver se suas ações coincidem com sua retórica. A situação é diferente de outras em que Trump utilizou alguma versão da abordagem “louca” e outros países se recusaram a entrar em uma escalada. Trump ameaçou a Coréia do Norte com “fogo e fúria” e disse que a “destruiria totalmente”, por exemplo, mas ele e o ditador norte-coreano Kim Jong-un acabaram falando sobre um possível acordo.

Ele lançou uma vasta guerra comercial com a China, mas os dois lados pelo menos ainda estão falando (mesmo que os temores da recessão global estejam chegando aos poucos). Mais recentemente, ele ameaçou impor tarifas contundentes sobre o México se o país não interrompesse o fluxo de migrantes para a fronteira com os EUA, e o México parece ter pelo menos feito algumas concessões.

Provocações

A situação do Irã também pode não chegar ao auge. Trump poderia ainda simplesmente seguir a rota das sanções - o que parece ser sua punição preferida - e esperar que isso resolva. Mas e se o Irã mantiver as provocações? E se suas ações impactarem mais diretamente os Estados Unidos, como parece ter sido destinada a derrubada de um drone americano?

O Irã parece estar apostando que Trump quer evitar uma guerra no Oriente Médio e  ao final fará concessões. Mas isso teria um custo para o orgulho de Trump. Também arriscaria fazer com que sua decisão de sair do acordo nuclear iraniano parecesse tão imprudente quanto os democratas e aliados europeus disseram ser.

É uma mistura volátil envolvendo um presidente que fez da volatilidade seu cartão de visitas. E parece ser o maior campo de testes até hoje para o entendimento da desajeitada política externa de Trump. / Tradução de Claudia Bozzo

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