Jabin Botsford/W. POST
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Análise: John Bolton está coberto de motivos para testemunhar no impeachment de Trump

Ex-conselheiro de Segurança Nacional demitido por Trump teria ficado 'furioso' com estratégia da Casa Branca para mobilizar investigações contra Joe e Hunter Biden na Ucrânia

Aaron Blake, The Washington Post

16 de outubro de 2019 | 06h00

Fiona Hill, ex-especialista em Rússia da Casa Branca, disse que o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton comparou Rudy Giuliani, o advogado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a uma “granada de mão”. Em resposta, Giuliani comparou Bolton a uma “bomba atômica”.

Giuliani pode estar certo – mas talvez não no sentido em que julga estar.

Bolton ainda não foi convocado a testemunhar nas investigações sobre impeachment iniciadas pelos deputados democratas da Câmara. Mas o ex-conselheiro de segurança nacional tem para eles, potencialmente, uma tripla utilidade: proximidade do suposto escândalo, motivação para contar sua história e, talvez o mais importante: convicção de quem acredita verdadeiramente no que faz.  

Na segunda-feira, Hill testemunhou que Bolton ficou “furioso” com as manobras dos assessores de Donald Trump sobre a Ucrânia, e indicou que ele foi um dos funcionários envolvidos em segurança nacional que manifestaram preocupação com um advogado da Casa Branca.

Bolton e Gordon Sondland, embaixador da União Europeia, se encontraram no início de julho com o então enviado especial à Ucrânia Kurt Volker, com Hill e com o secretário de Energia Rick Perry. Na reunião, a agenda de Sondland para a Ucrânia começou a ficar clara quando ele deixou escapar, para outros funcionários presentes, que havia “investigações derrubadas que precisariam ser reiniciadas”, segundo um funcionário americano conhecedor do assunto.

Os funcionários entenderam que ele se referia à Burisma, empresa de energia, e o ex vice-presidente dos EUA Joe Biden e seu filho, Hunter Biden – algo que fez Bolton “explodir” após a reunião, disse o funcionário.

“Hill disse aos deputados que, após o encontro, Bolton orientou-a a manifestar as preocupações dos dois com as nebulosas operações da Ucrânia com advogados da Casa Branca. Bolton disse que não queria fazer parte de nenhum ‘negócio escuso’ que estivesse sendo discutido na Ucrânia”, segundo afirmou uma pessoa que ouviu o testemunho de Hill.

Nessa altura, soubemos que Bolton não estava satisfeito com sua (tumultuada) saída da Casa Branca, dado o impasse com Trump sobre o assunto. O que não sabíamos era a que ponto iria seu desencanto com a história da Ucrânia.

De qualquer modo, há vários indícios de que Bolton foi “congelado” pela Casa Branca até o fim de sua participação no processo, à medida que o desentendimento entre ele e Trump aumentava. Relatórios indicaram que a política com a Ucrânia pairou com frequência sobre o Conselho de Segurança Nacional, que Bolton chefiava e no qual Hill trabalhava.

Mas Hill disse que Bolton estava presente pelo menos em alguns eventos-chave sobre a Ucrânia, o que seria importante em qualquer testemunho que ele possa dar.

A motivação de Bolton também é importante aqui. Além de sua insatisfação com as circunstâncias de sua saída, ele já havia criticado algumas políticas do governo que deixou para trás – com mais moderação em público e de modo mais ácido privadamente.

Apoiadores de Trump vão qualificá-lo de ex-assessor ressentido, se ele testemunhar contra a Casa Branca, mas assessores leais a Bolton poderão apresentar os eventos de modo mais favorável a ele. Bolton parece não ter grande motivação para testemunhar, tomando-se por base como ele vê o episódio e como ele saiu da Casa Branca. E, se testemunhar, tudo que ele disser será sob juramento.

Isso é um ponto a ser considerado. Bolton não apenas é uma testemunha potencialmente motivada por pouca lealdade a Trump. Existe algo que o impele em direção oposta: uma visão quase religiosa de política externa. Bolton tem sido criticado por sua estridência e seu militarismo excessivo, mas, seja qual for a substância de sua política externa, o ponto aqui é que ele tem fortes convicções que parecem superar quaisquer outras preocupações.

Isso é importante especialmente nesta hora, porque a política externa de Trump se afastou significativamente da visão de Bolton – mais recentemente, na decisão de Trump de se retirar do norte da Síria, à qual muitos republicanos se referem em termos pouco elogiosos.

Eles dizem que Trump abandonou os curdos, aliados dos Estados Unidos, para serem “esquartejados” nas mãos da Turquia, além de permitir um possível ressurgimento do Estado Islâmico. Se esses republicanos estão criticando Trump como nunca fizeram antes, imaginem o que o próprio Bolton está pensando.

Uma das grandes ironias no caso é que Bolton talvez seja a última pessoa que se esperaria como testemunha-chave dos democratas nas investigações de impeachment, considerando-se quanto estes o ridicularizaram. O que poderia dar a ele motivação extra para depor é o afastamento do Partido Republicano da ortodoxia em política exterior.

Muita água ainda pode correr, e Bolton até agora não foi nem chamado para depor. Mas Giuliani parece genuinamente preocupado com que Bolton veja suas ações, e da equipe de Trump na Ucrânia, sob essa luz. A mesa parece estar posta para que Bolton seja figura de destaque no que vier em seguida. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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