EFE/EPA/ETIENNE LAURANT
EFE/EPA/ETIENNE LAURANT

Análise: Liberdade, igualdade, fraternidade... e manifestações

Ir às ruas para desafiar o poder é uma tradição muito francesa; especialistas dizem, no entanto, que as cenas de violências estão se tornando mais frequentes

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 16h54

PARIS - Sair às ruas para desafiar o poder é uma tradição muito francesa que nem sempre acaba em violência. No entanto, as cenas de caos e confrontos, como as que eclodiram em Paris no fim de semana passado, estão se tornando mais frequentes, dizem os especialistas.

Augustin Terlinden, um belga de 33 anos, corria pela avenida Foch, um dos endereços mais elegantes da capital francesa, quando se deparou com veículos em chamas e barricadas. "Vejo que a tradição revolucionária segue muito forte na França", disse com um sorriso nos lábios, antes de fugir apavorado, em meio à fumaça provocada por uma bomba de gás lacrimogêneo.

Oito mil manifestantes em Paris, segundo a direção da polícia, mais de 10 mil granadas lançadas pela polícia, 133 feridos e 412 detidos. A manifestação dos "coletes amarelos", os franceses que protestam contra a política social e fiscal do governo de Emmanuel Macron, esteve marcada por uma "violência extrema e sem precedentes", reconheceu no dia seguinte o comandante da polícia de Paris, Michel Delpuech.

"Paris em chamas", alertava a imprensa estrangeira, que viu nas cenas de guerrilha urbana uma confirmação de que a rebelião faz parte do DNA da França, "esse país sempre tentado pela violência", segundo escreveu o jornal suíço Le Temps.

Mas para Michel Pigenet, professor de História da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, isso não é certo. "As manifestações violentas não são uma tradição francesa. São vistas também no Reino Unido, na Alemanha e Itália", afirma este especialista em movimentos sociais.

"Mas o que é certo é que na França há uma tradição de mobilização coletiva", estreitamente ligada à história do país, começando com a violenta Revolução de 1789, na qual cabeças rolavam, explica.

"Na França, a revolução tranquila não é algo que funcione (...) Há uma ideia de que quando o povo se manifesta ele deve ser ouvido, do contrário, a situação pode degenerar", diz Pigenet.

'O direito à insurreição'

O historiador lembra que a Constituição de 1793 havia estabelecido o "direito à insurreição, quando o governo não escutar o povo". "A ideia segue latente", diz.

"As manifestações fazem parte da cultura francesa", confirma Olivier Cahn, professor da Universidade de Tours. E a tradição persiste já que "muitas vezes deu resultados", destaca este especialista.

Assim, vários governos franceses retrocederam após manifestações violentas, criando a impressão de que são o único modo de expressão capaz de fazer o poder se dobrar.

Em maio de 1968, o salário mínimo aumentou em um terço após as manifestações nas quais várias pessoas morreram. Em 1986, o "projeto Devaquet", considerado pelos manifestantes como uma seletividade para entrar na universidade, foi abandonado depois da morte de um estudante. Em 2006, a introdução do CPE, um contrato de trabalho destinado a facilitar as contratações, mas criticado por sua precariedade, foi retirado após manifestações violentas.

"Os franceses têm a impressão de que todos os métodos são bons: como não são ouvidos, é preciso encontrar outras formas", explica Michel Pigenet.

"Há um movimento crescente que defende métodos mais combativos que as marchas clássicas", analisa Erik Neveu, professor de Ciências Políticas em Rennes. Isso explica o apoio maciço (70% a 80%) da população francesa aos "coletes amarelos", apesar da violência de alguns de seus membros.

"Alguns simpatizam com o 'pobre comerciante' cujas vitrines foram destruídas, mas outros acham que é a única maneira de conseguir algo", resume Neveu. 

Isso poderia explicar, acrescenta Neveu, o motivo de manifestantes até agora moderados participarem dos abusos. Como esses "coletes amarelos" pais de família que agiram nos tumultos de sábado.

A multiplicação de confrontos durante as manifestações, um fenômeno cada vez mais comum "desde os anos 2000", também é explicado pela "perda de força das estruturas clássicas que normalmente organizam as manifestações", como os sindicatos, conclui Pigenet. / AFP

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