Mandel Ngan/AFP
Mandel Ngan/AFP

Análise: Líderes autoritários estão perdendo a guerra contra o vírus

Para eles, pandemia foi mais uma maldição do que uma bênção

Ivan Krastev, The New York Times

09 de setembro de 2020 | 05h00

Para um europeu oriental da minha geração, assistir aos protestos na Bielo-Rússia é como folhear um velho álbum de fotos. As cenas de trabalhadores em greve evocam os estaleiros de Gdansk, na Polônia, e o movimento Solidariedade da década de 80. O dilema de Moscou sobre oferecer apoio “amigável” ao regime do presidente Alexander Lukashenko me lembra a Checoslováquia, em 1968, quando tropas soviéticas entraram no país para impedir a popular Primavera de Praga. 

Neste ano, quando toda a Europa estava de quarentena para combater a pandemia, Lukashenko informou aos cidadãos que não havia nada a temer. A melhor coisa que eles podiam fazer, disse ele, era ignorar a histeria global, ir aos estádios de futebol e torcer por seus times favoritos. Muitos que o fizeram foram infectados e morreram. Podemos apenas especular quantos bielo-russos teriam saído às ruas se não fosse pela covid-19. Está claro, porém, que a resposta irresponsável do governo à pandemia foi um ponto de inflexão.

Os protestos deveriam nos forçar a repensar a relação entre a pandemia e o autoritarismo. O vírus infecta nossas sociedades com governos autoritários ou pode fortalecer a imunidade democrática? Alguns temem que, mais do que qualquer outra crise, uma emergência de saúde pública como esta levará as pessoas a aceitar restrições às suas liberdades na esperança de melhorar a segurança pessoal. A pandemia aumentou a tolerância à vigilância invasiva.

Ao mesmo tempo, a pandemia corroeu o poder de líderes autoritários. Reações instintivas, como a de Lukashenko, na Bielo-Rússia, a de Vladimir Putin, na Rússia, a de Jair Bolsonaro, no Brasil, e a de Donald Trump, nos EUA, não foram a de aproveitar o estado de emergência para expandir sua autoridade, mas sim de minimizar a seriedade da pandemia.

Por que os líderes autoritários que prosperam em crises e são fluentes na política do medo relutam em aproveitar a oportunidade? Por que eles parecem odiar uma crise que deveriam amar? A resposta é direta: os líderes autoritários só desfrutam das crises que eles mesmos fabricam. Eles precisam de inimigos para derrotar, não de problemas para resolver. A liberdade que eles mais valorizam é a liberdade de escolher quais crises merecem resposta. É essa capacidade que lhes permite projetar uma imagem de poder divino.

Nesse contexto, a covid-19 se tornou mortalmente perigosa para regimes autoritários, como o de Lukashenko. Ainda é possível que o paciente sobreviva se for colocado em coma artificial no pronto-socorro de Putin. Mas agora está claro que o vírus é mais uma maldição do que uma bênção para líderes autoritários como ele. 

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