REUTERS/Jorge Adorno
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Análise: Lugo, o inesperado aliado de ouro de Cartes pela reeleição

O atual presidente foi um personagem-chave na destituição do ex-bispo, hoje ambos se aliam para abrir a comporta da reeleição

Estela Ruiz Díaz, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 05h00

O magnata do tabaco Horacio Cartes assumiu em 2013 a presidência da república sem nenhum esforço. Bastou-lhe abrir a generosa carteira para comprar espaço no poderoso Partido Colorado, que na ocasião estava em baixa porque Fernando Lugo, o ex-bispo de sandálias empoeiradas, havia conseguido em 2008 a façanha de cortar a hegemonia de 60 anos do partido no poder graças a uma aliança que uniu esquerda e direita.

Em 2012 o empresário já mostrou ao que vinha na política quando, das sombras, foi um personagem-chave na destituição de Lugo, traído pelos próprios aliados que o levaram ao poder.

Em 2013, venceu com tranquilidade as eleições presidenciais e, como todo outsider, criou altas expectativas num país doente de corrupção e fraqueza institucional. Superou um cômodo primeiro ano com o apoio de um Congresso que, com uma classe política desprestigiada, deu-lhe pleno apoio. Recebeu superpoderes para negociações políticas e econômicas. Pôde dispor das Forças Armadas na luta contra a guerrilha do Exército do Povo Paraguaio (EPP).

Em várias ocasiões prometeu que se despediria ao terminar o mandato, em 2018. Mas, como todos os presidentes da região, não escapou à tentação. A Constituição paraguaia proíbe taxativamente a reeleição, que só pode ser instaurada via reforma – ou seja, por uma Assembleia Constituinte. Em 25 de agosto do ano passado, o setor anticartista do Senado (uma variada aliança de colorados dissidentes, liberais e esquerdistas) rechaçou a emenda da reeleição com uma manobra bem-sucedida.

O voto mais chamativo foi o de Fernando Lugo, que, ao repudiar a emenda, atirou no próprio pé, contra os conselhos de seu partido, a Frente Guasú. Com esse lance, a reeleição presidencial foi ferida de morte porque a Constituição também estabelece que, se uma das câmaras rechaça um pedido de emenda, o assunto só pode voltar à pauta depois de um ano. Nesse caso, em 25 de agosto – tarde demais para as pretensões de Cartes.

Mas o presidente não é homem de derrotas. De fato, sua frase favorita é “compro essa briga”. Dobrou a aposta e instruiu seus adeptos a levar adiante a empresa, a qualquer preço. Nessa aventura, conseguiu um aliado inesperado que lhe deu fôlego: Lugo.

Ainda que o ex-bispo, hoje o candidato mais bem posicionado nas pesquisas, sustente seu voto contra a emenda, ele lava as mãos como Pôncio Pilatos e é seu partido, a Frente Guasú, que faz o trabalho de apoiar o plano cartista. Assim, participaram terça-feira de uma sessão polêmica e irregular que modificou o regulamento do Senado para abrir caminho para a emenda.

O cenário político está confuso porque a reeleição é como uma espada que varou e envenenou tudo: de um lado, estão Cartes e a ala oficial do Partido Colorado, mais um setor do Partido Liberal que justifica sua posição porque apoia a reeleição de Lugo; de outro, os colorados dissidentes, o setor oficial do Partido Liberal liderado por Efraín Alegre e um setor da esquerda cujo líder é o prefeito de Assunção, Mario Ferreiro. A sociedade segue atônita, sem compreender a convivência repentina de vítimas e carrascos.

Lugo, cuja liderança surgiu em 2006 ironicamente contra uma tentativa parecida do presidente Nicanor Duarte, é hoje a chave de ouro de Cartes para abrir a comporta da reeleição. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA DO JORNAL ‘ÚLTIMA HORA’

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