Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

Análise: Lutar com mão amarrada às costas

Presidente Joe Biden terá de conviver e resolver problemas deixados por Trump, como a polarização doméstica e política externa isolacionista

Oliver Stuenkel*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00
Atualizado 20 de janeiro de 2021 | 05h00

Não existe política externa ambiciosa e impactante sem estabilidade dentro de casa. Nos Estados Unidos, os presidentes costumam ter o privilégio de encontrar a cozinha arrumada o bastante para isso não ser um problema. É assim que sobra tempo e capital político para projetarem sua influência em outros países. Apesar das diferenças internas, os dois partidos geralmente concordavam com qual deveria ser o rumo básico da política externa. Isso criou uma estabilidade que ajudou os EUA a estabelecerem alianças de longo prazo.

Quando Biden acender a luz da Casa Branca, vai encontrar um cenário bem diferente. Além da pandemia e de uma crise econômica histórica, os EUA estão enfrentando um maremoto político bastante complexo. Há indícios de que a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro não tenha sido uma mera aberração, mas reflexo de um problema mais amplo na política americana. A oposição já não é a mesma. O espírito conservador do Partido Republicano cedeu espaço para um viés populista com elementos autoritários. Em um ambiente altamente polarizado, um oponente assim assombrará a presidência de Biden. Uma parcela significativa dos que votaram em Trump nem sequer reconhece o democrata como presidente legítimo. De presidente a réu, Trump continua ocupando o debate público. A votação do Senado sobre seu afastamento - algo que poderia levar à perda de seus direitos políticos -, dá o tom do que vem pela frente. As inúmeras investigações em andamento podem acabar com Trump preso e Biden de mãos atadas, sem clima para implementar suas principais propostas.

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Mas Trump não surgiu do nada, e suas atitudes deixarão marcas. Sua postura mais isolacionista e cética em relação à globalização reflete mudanças profundas na opinião pública americana no que diz respeito aos conceitos que guiaram a política externa do país desde o fim da Guerra Fria. Essa ideia de uma América ensimesmada está mais forte do que nunca, e dificulta qualquer movimento externo mais ambicioso por parte do presidente. Sobretudo no âmbito comercial, Biden terá que adotar uma estratégia bem mais protecionista do que os governos pré-Trump. Aliados tradicionais como a União Europeia e o Japão tampouco estão dispostos a agir como se os últimos quatro anos tivessem sido um sonho ruim. As reviravoltas de Trump deixarão sequelas nessas relações, reduzindo a confiança em Washington de maneira permanente. Afinal, quem garante ao governo alemão que um trumpista não volte ao poder daqui a quatro anos? O acordo de investimentos que os europeus concluíram com a China poucas semanas antes da posse de Biden é sinal de que o velho continente montou um plano B, reduzindo sua dependência em relação a Washington.

Por fim, o mundo de 2021 é bem mais sinocêntrico do que na era Obama. De lá para cá, houve um deslocamento de poder em direção à Ásia. O maior acordo comercial do mundo – a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês) – foi ratificado sob liderança chinesa. Os EUA abandonaram a Parceria Transpacífica (TPP), desde então rebatizada de AAPPT. A gestão catastrófica da pandemia só colocou uma cereja no bolo de um mundo onde os EUA são cada vez menos anfitriões e mais convidados. Se adequar a essa nova realidade em meio à mais profunda crise interna desde a Guerra Civil será o maior desafio de Biden no âmbito externo.

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COORDENADOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE  RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FGV-SP

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