Susan Walsh/AP
Susan Walsh/AP

Análise: Manchado na história, Trump sai triunfante de julgamento

Inimigos do presidente americano o atacaram, mas não o derrubaram

Peter Baker, The New York Times

03 de fevereiro de 2020 | 07h00

Ralph Waldo Emerson parecia prever a lição do julgamento do impeachment de Donald Trump no Senado. “Quando você ataca um rei, tem de aniquilá-lo”, foi sua famosa frase. Os inimigos de Trump o atacaram, mas não o derrubaram.

Com o fim iminente do julgamento do impeachment e a sua absolvição assegurada, um presidente triunfante emerge do maior teste do seu governo encorajado e pronto para afirmar sua inocência e usar esse caso como perseguição, injustiça e ressentimento durante sua campanha.

Os adversários democratas do presidente lançaram a maior bomba constitucional que tinham à mão e não conseguiram derrotá-lo ou mesmo forçar um julgamento pleno com testemunhas comprovando as acusações contra ele. Agora, Trump, que afirmou que a Constituição lhe permite fazer o que quiser e rompeu muitas barreiras que cercearam outros presidentes no passado, tem poucas razões para temer o Legislativo, tampouco para se predispor a uma conciliação.

O impeachment sempre será uma mancha no histórico político de Trump, uma realidade que ele lamenta particularmente, de acordo com pessoas próximas. Mas também será o primeiro presidente na história dos EUA a encarar os eleitores depois de um processo de impeachment tendo a chance de alegar nos próximos nove meses que seus inimigos passaram o seu mandato inteiro tramando contra ele para anular a eleição de 2016.

Os democratas insistem que Trump foi prejudicado pela evidência apresentada ao público de que ele quis usar o poder do seu cargo para beneficiar ilicitamente as suas próprias chances de reeleição. Mesmo tendo se alinhado para absolver o presidente, os republicanos do Senado admitiram que os promotores do processo da Câmara provaram que Trump reteve a ajuda para segurança prometida à Ucrânia, no valor de US$ 391 milhões, como parte de uma tentativa para pressionar aquele país a realizar investigações políticas de rivais do presidente.

Mas o público saiu do julgamento de impeachment próximo do que estava quando ele teve início, ou seja, claramente dividido no meio, com um pouco mais de americanos contra Trump do que a seu favor.

Quando a Câmara aprovou o impeachment de Trump em dezembro, 47,4% apoiaram a medida e 46,5% se opuseram a ela, segundo análise de várias pesquisas realizadas pelo website FiveThirtyEight. Agora, com o encerramento do processo, 49,5% defendem o impeachment e 46,4% não. Esses porcentuais estão muito próximos dos resultados do voto popular em 2016, quando Trump perdeu para Hillary Clinton numa proporção de 46% para 48% dos votos, mas saiu vitorioso no Colégio Eleitoral. Parece que pouca coisa mudou na cabeça dos eleitores.

Trump é o único presidente na história do instituto Gallup que nunca teve apoio de uma maioria de americanos uma única vez, um indicador preocupante para a reeleição. Nove meses são uma eternidade na política atual nos EUA e, face a sua história, Trump pode facilmente criar um novo furor que mudaria a dinâmica da campanha. A economia pode ser um problema e com todas as acusações acumuladas, uma certa fadiga de escândalos pode pesar contra ele.

Trump aposta que conseguirá agregar seus eleitores mais fervorosos insistindo na tecla de que foi vítima e não o vilão no processo de impeachment. Ele deixou claro que irá acusar o antigo vice-presidente Joe Biden de corrupto se ele for seu adversário na eleição presidencial e atacará outros possíveis rivais democratas como socialistas.

Se Trump conquistar um segundo mandato, será a primeira vez que um presidente que sofreu um impeachment terá a oportunidade de governar cinco anos após seu julgamento e os críticos de Trump se preocupam que ele vai se sentir um presidente sem amarras. Ele já usou seu poder de maneira que presidentes desde Richard Nixon consideravam inaceitáveis, tendo demitido um diretor do FBI que o investigava e intimidado o Departamento de Justiça para abrir investigação contra seus inimigos políticos.

Se por um lado, teoricamente, nada na Constituição impede a Câmara de destituir Trump novamente, como matéria política isso parece implausível, uma vez que ele demonstrou que domina totalmente os republicanos congressistas. Alguns dos promotores no processo de impeachment na Câmara alertaram que a absolvição reduzirá o rigor dos critérios no tocante à má conduta presidencial, indicando que Trump se sentirá ainda mais livre para usar seu poder em seu próprio benefício porque sabe que não haverá consequências. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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