REUTERS/Toby Melville
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Análise: Manobra de bastidor revela lado implacável de Boris Johnson

Com o Brexit em suspenso, Johnson reuniu todo o poder para cortar as pernas de uma oposição vacilante, arriscando criar uma crise constitucional para conseguir o que prometeu

Benjamin Mueller / NYT, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Boris Johnson foi projetado ao topo da política britânica com um ar de charme e caótica perplexidade. Ele entrou entre grupos distintos, mudou de lado quando isso se adequava às suas ambições e verteu uma provocativa bravata, como quando colocou o pé sobre uma mesa no Palácio do Eliseu, em Paris, na semana passada.

Mas a decisão de Johnson de interromper a sessão do Parlamento revelou outro lado: o do tático impiedoso que assumiu o cargo de premiê. Com o Brexit em suspenso, Johnson reuniu todo o poder para cortar as pernas de uma oposição vacilante, arriscando criar uma crise constitucional para conseguir o que prometeu.

Os oponentes de Johnson argumentam que suas políticas podem resultar em um Brexit desastroso, sem acordo, com o potencial de devastar o Reino Unido, levar a economia a uma recessão, além de provocar a escassez de alimentos e de medicamentos.

“É muito mais intencional, mais organizado, em muitos aspectos, mais agressivo do que o Boris Johnson que as pessoas achavam que conheciam”, disse Tony Travers, professor de administração da London School of Economics.

Com sua “decisão tirar um coelho da cartola” para suspender o Parlamento, Johnson demoliu seus oponentes e “transmitiu a sensação de um governo que está no controle”, disse Travers.

Ao limitar o tempo disponível para que o Parlamento bloqueie um Brexit sem acordo, Johnson buscou minar uma estratégia da oposição anunciada na terça-feira, disseram analistas.

Após semanas discutindo sobre quem deveria assumir o comando, caso se derrotasse Johnson, os parlamentares da oposição mudaram o discurso. Eles disseram que adiariam a ideia de tentar tirar Johnson do cargo e, em vez disso, agiriam mais premeditadamente, concentrando-se na aprovação de legislação que impediria um Brexit sem acordo.

Para uma oposição fragmentada, era uma estratégia dolorosamente considerada de se unir e confrontar Johnson em seus planos. Também foi uma admissão de que eles ainda não tinham números para substituir Johnson por um premiê provisório, em grande parte porque a oposição está dividida sobre se Jeremy Corbyn, o líder esquerdista e eurocético do Partido Trabalhista, é um substituto adequado. Mas Johnson tinha outras ideias.

Ao interromper a sessão do Parlamento, ele abriu um buraco no plano da oposição para resolver os problemas lentamente e evitar uma decisão sobre tentar substituí-lo. De fato, dizem os analistas, ele chamou seu blefe, dando aos legisladores contra o Brexit apenas uma questão de dias para decidir se se sentiam fortes o suficiente para impedir o Brexit a fim de expulsá-lo do cargo.

Eles estão “chamando Corbyn para a briga e outros para pedir um voto de confiança na próxima semana”, disse Matthew Goodwin, professor de política da Universidade de Kent. “Johnson e sua equipe estão explorando as divisões no outro lado.”

Segundo as regras parlamentares, Johnson provavelmente precisará do apoio de Corbyn se desejar convocar uma eleição geral antecipada – o que não é uma coisa certa, já que os números das pesquisas do líder trabalhista estão em queda. E Johnson ainda está lidando com uma ameaça de insurgência da direita na forma do Partido Brexit, que pode desviar votos cruciais.

E enquanto Johnson reduziu drasticamente o tempo do Parlamento para debater o Brexit, ele não conseguirá impedir que a instituição se una em grupo. Os legisladores voltarão do recesso na próxima semana, e analistas acreditam que ainda há tempo para os líderes da oposição aprovarem uma lei que bloqueie um Brexit sem acordo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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