Análise: Massacre na Síria não deve levar a intervenção

Apesar de novas pressões para que países repensem sua cautela, resultado mais provável deverá ser diplomacia intensificada, e não uma corrida à guerra.

Shashank Joshi, BBC

27 Maio 2012 | 19h00

O caminho da guerra é coberto de massacres.

Tradicionalmente, o simbolismo de assassinatos em massa - seja iminente, como na cidade líbia de Benghazi no ano passado, ou completo, como na cidade bósnia de Srebrenica em 1995 - é responsável por fechar a lacuna entre diplomacia e ação militar.

Será que o massacre na cidade síria de Houla nesta semana, aparentemente envolvendo o assassinato de tantas crianças, terá um efeito similar?

Oficiais da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) insistem que não estão planejando uma intervenção na Síria.

Autoridades americanas têm sido cautelosas. Alguns Estados árabes - particularmente Arábia Saudita e Catar - vêm pedindo o uso da força, mas limitam sua intervenção a armas e dinheiro.

Mas, apesar do fato de que as terríveis imagens emergindo da cidade de Houla irão gerar novas pressões sobre todos esses países para que repensem sua cautela, o resultado mais provável deverá ser diplomacia intensificada, e não uma corrida à guerra.

Uma coisa é certa - o massacre de Houla mata um cessar-fogo que há muito deixou de ter qualquer significado.

A História se repete

Há ecos aqui de Srebrenica em 1995, quando forças de paz da ONU puderam apenas assistir enquanto bósnios muçulmanos eram massacrados.

Na Síria, os monitores da ONU tiveram acesso negado à área na sexta-feira, quando o bombardeio à cidade começou.

A missão da ONU é pequena demais e tem poucos recursos. Sua impotência diante de tamanha violência significa que não resta incentivo para que os rebeldes sírios parem sua própria campanha.

O Exército Sírio Livre - um grupo baseado na Turquia que serve como guarda-chuva para combatentes rebeldes - declarou que "a menos que o Conselho de Segurança da ONU tome medidas urgentes para a proteção dos civis, o plano de (cessar-fogo do enviado especial da ONU, Kofi) Annan irá para o inferno".

Na verdade, nem ao menos está claro se o Exército Sírio Livre controla os combatentes locais - o que significa que este conflito terá seu ímpeto próprio, que independe do que a liderança da oposição quer.

Até agora, porém, não há sinal de que Houla vai marcar uma mudança no jogo.

Ceticismo

Primeiro, é bom lembrar que esse massacre será interpretado de maneiras diferentes ao redor do mundo.

Muitos países simpatizam com a narrativa do governo de (Bashar) Assad de que a oposição é formada por sunitas fundamentalistas e terroristas.

O general Robert Mood, líder da missão da ONU na Síria, disse que as circunstâncias por trás das mortes ainda não estão claras.

No momento em que alguns críticos argumentam que os massacres na Líbia, no ano passado, e em Racak (Kosovo), em 1999, foram exagerados ou fabricados, um ceticismo parecido em relação a Houla vai persistir, mesmo diante de evidências irrefutáveis - e isso vai afetar como o Conselho de Segurança da ONU se posiciona sobre a questão.

Além disso, o crescente papel da Al-Qaeda e grupos jihadistas afiliados na Síria tem se tornado nos últimos meses um empecilho a mais a uma intervenção.

Autoridades americanas temem que o apoio à oposição possa terminar nas mãos das mesmas pessoas que articularam ataques contra as forças ocidentais no Iraque apenas alguns anos atrás.

Outro temor das autoridades é o de que soldados ocidentais em terra - mesmo que numa chamada zona de segurança - estariam vulneráveis a bombardeios, como o de 1983 em Beirute, que matou 241 americanos.

Rússia

Acima de tudo, entretanto, está o fato de que ninguém quer comprar uma briga com a Rússa.

Caso a Rússia continue fornecendo armas e ajuda a Damasco, é inconcebível que a Otan venha a interditar os mesmos e arriscar uma escalada.

Diplomatas americanos esperam agora que Moscou possa ser persuadida a deixar que Assad se vá, mas mantendo o regime - e os interesses russos.

Esse é um esquema moldado no plano pelo qual os Estados Unidos e a Arábia Saudita tiraram o presidente iemenita, Ali Abdullah Saleh, do cargo.

Mas é pouco provável que isso funcione. O regime sírio é altamente personalista e provavelmente se desmantelaria rapidamente sem Assad e seus principais conselheiros.

A rebelião também está em um estágio avançado, e não irá concordar com um acordo esquálido que pode até deixar os perpetradores deste massacre no comando das forças de segurança.

O massacre de Houla é apenas o mais recente, e talvez mais doloroso, de uma série de acontecimentos que zombam do plano de paz proposto por Kofi Annan para a Síria.

Se mesmo o mais básico de seus pontos - um cessar-fogo e a retirada das forças do governo - não é colocado em prática, uma transição política negociada é inútil.

No curto prazo, a Turquia e os Estados árabes provavelmente irão aumentar a assistência material a partes da oposição síria.

Caso os esforços diplomáticos não tragam frutos rapidamente, os outros "Amigos da Síria" - entre eles os Estados Unidos e a Grã-Bretanha - talvez sigam o mesmo caminho, na ausência de estômago político para uma guerra de verdade. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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