Daniel MIHAILESCU / AFP
Daniel MIHAILESCU / AFP

Análise: Medo de influência americana supera temor da Rússia

Com o presidente Donald Trump e seus aliados aceitando os líderes de extrema direita da Europa, os centristas europeus se veem de novo preocupados com a influência potencialmente distorcida dos EUA

Michael Birnbaum / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2019 | 05h00

Dias antes das eleições fundamentais para o Parlamento Europeu, políticos, serviços de segurança e empresas de mídia social que se preparavam para uma investida da parte da Rússia estão surpresos porque, até agora, isso parece ter sido evitado.

Os legisladores dizem que não viram o que antes temiam: uma enxurrada de documentos pirateados constrangedores, ou contas no Twitter convocando protestos de rua que só são postados durante o horário comercial de Moscou.

Eles são cautelosos ao dizer que a intromissão russa foi neutralizada, especialmente porque alguns políticos de extrema direita acolhem bem a ajuda do Kremlin. Neste último final de semana, o vice-chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache, renunciou depois que um vídeo filmado em 2017 mostrou que ele era receptivo a investimentos da Rússia com motivações políticas.

Mas a ansiedade mudou um pouco para dentro, já que muitas das táticas de desinformação pioneiras da Rússia foram domesticadas, replicadas nos dois extremos do debate político na Europa. Enquanto isso, com o presidente Donald Trump e seus aliados aceitando os líderes de extrema direita da Europa, os centristas daqui também se veem de novo preocupados com a influência potencialmente distorcida dos Estados Unidos.

“Não estamos em 2016. Não vemos a atividade automatizada em rede com uma óbvia ‘impressão digital’ russa nessas eleições”, disse Sasha Havlicek, diretora do Instituto de Diálogo Estratégico de Londres, que rastreia casos de desinformação online. “O que estamos vendo muito mais são as operações coordenadas e transnacionais de informação de extrema-direita”.

O Parlamento Europeu tem sido há muito tempo um refúgio para políticos excêntricos fora do tradicional, uma vez que poucos cidadãos europeus realmente compreendem o papel do legislativo e menos ainda se interessam em votar. Isso deixou uma abertura para pessoas que conseguem comandar uma minoria fervorosa, como Nigel Farage, o ativista do Brexit que perdeu sete eleições para a Câmara dos Comuns da Grã-Bretanha, mas está no Parlamento Europeu desde 1999.

Políticos eurocéticos saíram-se bem na última eleição para a legislatura europeia em 2014. Mas para esta semana eles sonham com uma mudança histórica - uma onda suficiente de deputados que forme uma minoria com capacidade de bloqueio dentro da instituição e leve o funcionamento da União Europeia a uma suspensão.

Líderes centristas calcularam que a Rússia queria a mesma coisa e que o Kremlin criaria as obstruções para estimular seus simpatizantes. Líderes europeus encomendaram relatórios sobre interferência estrangeira, recrutaram serviços de inteligência em um esforço para serem vigilantes e pressionar as empresas de mídia social a policiar suas plataformas. Mas os piores temores sobre o envolvimento do Kremlin não se manifestaram, disseram autoridades e analistas.

“Não estamos calmos em relação ao todo”, disse o ministro das Relações Exteriores da Letônia, Edgars Rinkevics, cujo país báltico tem uma grande população de idioma russo e está na linha de frente das tensões com o Kremlin. “Estamos tentando detectar toda e qualquer atividade que possa ser suspeita”.

Ainda assim, ele disse, “até agora, não houve alarmes sobre qualquer coisa incomum”.

Ele e outros advertiram que é um desafio monitorar tendências em tempo real em 28 países da União Europeia, cada um com suas próprias campanhas, sendo realizadas em 24 idiomas oficiais. E eles disseram que a Rússia mostrou ser adepta de adaptar suas táticas para se manter discreta. Mas comentaram que, se houvesse um grande esforço russo para conduzir as eleições em direção a partidos ou candidatos específicos, isso estava sendo conduzido de maneira bastante diferente dos ciclos passados, que eles ainda não tinham percebido.

A Rússia ainda está trabalhando abertamente para promover narrativas políticas divisionistas dentro da Europa. A agência de notícias Sputnik ofereceu uma cobertura abrangente dos protestos dos “coletes amarelos” que abalaram a França. A página inicial em alemão da RT, antiga Russia Today, recentemente exibiu um banner desmentindo “mitos” de que a antiga Alemanha Ocidental fosse superior à Alemanha Oriental comunista.

Também houve um aparente subterfúgio: a equipe oficial de controle da desinformação da UE sinalizou no mês passado um portal de notícias em inglês e alemão com “impressões digitais” russas, incluindo uma codificação que mostrava vídeos postados de uma pasta de computador chamada “Anastasia” em escrita cirílica.

O Facebook disse neste mês que desativou 16 contas ligadas à Rússia, quatro páginas e uma conta do Instagram que estavam segmentando usuários em sete países da EU e Ucrânia. Mas a escala do que foi identificado é mínima em comparação com o passado - ou como haviam previsto os europeus.

Jana Kobzova, consultora da Comissão Transatlântica para a Integridade Eleitoral, disse que Moscou pode ter calculado que não valia a pena preocupar-se com essas eleições. “Rússia tem recursos limitados”, disse ela. “E se eles já tiverem pessoas como Nigel Farage sendo eleito, nem precisam ajudar muito.”

Mas analistas dizem que a Europa também pode ter-se aperfeiçoado em frustrar as tentativas russas de abalar suas campanhas.

Os políticos europeus se tornaram mais experientes em proteger suas comunicações e são menos propensos a cair em tentativas de obtenção de informações (phishing). O Facebook prometeu mais abertura sobre quem está pagando por propaganda política nas eleições europeias. O Twitter está se movendo mais rápido para limpar as contas de bots automatizadas de seus lançamentos. E os cidadãos também podem estar mais cautelosos com o que veem on-line.

“Os países membros são muito menos ignorantes do que o eram em 2016 e estão conscientes da necessidade de fazer algo”, disse Kobzova.

O esforço coletivo no continente coloca-se em contraste com os Estados Unidos, onde a discussão sobre a interferência russa entra como divisor de afiadas linhas partidárias. Depois que Trump conversou por telefone com o presidente russo, Vladimir Putin, no início do mês, ele tuitou que eles não haviam falado sobre interferência eleitoral, mas sobre o “embuste (hoax) russo”.

Os europeus, enquanto isso, estão intranquilos com a forma como Trump, seus enviados e ativistas ultraconservadores dos EUA podem influenciar as eleições desta semana. Os temores quanto aos Estados Unidos são tão grandes quanto a respeito da Rússia. E as preocupações estão crescendo.

Muitos líderes centristas na Europa viram uma clara mensagem de campanha no momento escolhido para a visita do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán a Washington na semana passada. Trump disse que Orbán - que foi punido com um processo oficial da UE sobre violações ao estado de direito – “tem feito um tremendo trabalho de muitas maneiras diferentes. Altamente respeitado. Respeitado em toda a Europa. Provavelmente, como eu, um pouco controverso, mas tudo bem.”

Ao mesmo tempo, alguns dos enviados de Trump para a Europa têm sido mais abertamente partidários do que embaixadores de governos anteriores. O embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell, criticou os líderes alemães por sua postura quanto à migração, ameaçou-os a respeito de um projeto de gasoduto para a Rússia e elogiou os rivais da chanceler alemã Angela Merkel.

Os políticos europeus também ficaram alarmados com o dinheiro investido por ativistas sociais ultraconservadores dos EUA, que pagaram por lobistas e ativismo em questões como migração e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma análise da OpenDemocracy sobre os registros de impostos dos EUA constatou que pelo menos US$ 50 milhões haviam ingressado na Europa na década passada - uma queda nos padrões norte-americanos, mas um fluxo de caixa significativo no mundo de baixo orçamento da política europeia.

Esse relatório levou 38 legisladores europeus a exigirem uma investigação da UE sobre fluxos de dinheiro dos Estados Unidos, visando “a ameaça representada pelos fundamentalistas cristãos” e outras “influências nefastas externas”.

Uma influência americana que tem sido mais marginal do que previsto é a de Stephen Bannon, ex-estrategista de Trump, que fez muito barulho ao organizar a extrema direita da Europa antes dessas eleições.

Bannon apareceu ao lado de Matteo Salvini, da Itália, e de Marine Le Pen, da França. Mas seu esforço pré-eleitoral para fornecer a candidatos simpáticos certos dados de pesquisas e conselhos de campanha foi frustrado pelas leis de financiamento de campanha e pela falta de interesse dos líderes de extrema direita. Bannon agora diz que tentará construir coalizões entre os políticos de extrema-direita, uma assim que eles tomarem de assalto o Parlamento.

Os partidos de extrema-direita na Europa não precisaram nem de Bannon, nem da Rússia, em parte porque alguns de seus apoiadores domésticos imitaram a estratégia da Rússia de incentivar a desinformação e amplificá-la com contas automatizadas.

Antes das eleições nacionais espanholas no mês passado, o Facebook derrubou três redes que pareciam estar disseminando desinformação automaticamente. A Avaaz, grupo ativista que direcionou o conteúdo, estimou que as redes tinham quase 1,7 milhão de seguidores. As páginas compartilhavam fotos manipuladas de um líder de esquerda fazendo uma saudação nazista, inventando dados sobre homens norte-africanos sendo desproporcionalmente responsáveis por casos de estupro na Espanha e uma notícia imprecisa sobre “separatistas catalães” fechando clínicas de câncer infantil em favor de Embaixadas catalãs.

Discretamente, analistas questionam se a automação pode estar exercendo um papel no suporte on-line para o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Em uma amostra do conteúdo político on-line alemão, analisado pela empresa de pesquisa Alto Data Analytics, menos de 1% dos usuários gerou 10% dos posts, a maioria deles a favor da AfD. Eles admitem que é difícil separar algumas atividades automatizadas de usuários reais que são extremamente entusiastas.

“É difícil dizer, mas eu não quero subestimar as estratégias de comunicação populista da extrema direita europeia”, disse Judith Sargentini, membro do Partido da Esquerda Verde Holandesa do Parlamento Europeu e adversária da extrema-direita. “Se fôssemos começar a culpar a Rússia ou os EUA por isso, acabaríamos deixando que todas essas pessoas na Europa que estão enviando essas mensagens racistas e intolerantes sejam menos responsáveis por seus próprios atos.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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