Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Análise: Meio ambiente e investimentos, entre o trunfo e a maldição

Na Europa e nos Estados Unidos coalizões antibrasileiras ganham corpo e voz; governo precisa demonstrar de forma crível e objetiva quais são as suas propostas

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2020 | 08h59

Desde o início do governo, os temas de meio ambiente, agricultura e economia davam a impressão, até para os mais céticos, de que iriam compor uma grande estratégia de política externa, dando concretude aos avanços conquistados pelo Brasil desde os anos 1990. Como vetores de força, de crescimento e de desenvolvimento do país, esses pilares acabaram sendo transformados em eloquente pesadelo.

A conta chegou e, junto dela, as reações. Empresas nacionais e estrangerias se organizaram em bloco, em gesto de advertência, contra os rumos da política ambiental do governo. Na Europa e nos Estados Unidos coalizões antibrasileiras, infelizmente, já ganharam corpo e voz. Sem uma política ambiental com regras e compromissos claros de desenvolvimento sustentável, não haverá investimentos – e isso afeta a espinha dorsal do preposto projeto econômico do governo.

Sem uma diplomacia ambiental crível e orientada concretamente para proteção da biodiversidade, o Brasil acabará sofrendo de inanição de ingresso de capitais e de restrições de acesso a mercados. A agricultura brasileira se modernizou, incorporou tecnologia a sua base produtiva, tornou-se competitiva e hoje é uma referência de que não é preciso devastar o meio ambiente para assumir a ponta da produção mundial.

O agribusiness é quem atualmente segura parcela significativa do PIB nacional. As erráticas políticas ambientais e os graves equívocos da diplomacia brasileira são os dois fatores que mais impactam negativamente a agricultura e a economia internacionalmente. O boicote aos produtos brasileiros será uma questão de tempo se tudo seguir como está. 

A janela de oportunidade para o Brasil reorganizar a sua estratégia está se tornando cada vez mais exígua. Ao abdicar de realizar a COP-25, o governo brasileiro aceitou perder o predomínio sobre a narrativa e, de quebra, abdicou de convencer o mundo – e os investidores nacionais e internacionais – da seiva de seu propósito sobre a sua própria política de sustentabilidade. Ao invés de ser o detentor do curso dos acontecimentos, em seu próprio palco diplomático, o governo optou por ser um ator apagado durante a Conferência – realizada, em Madri, em 2019. 

As consequências eram, simplesmente, uma mera questão de tempo. Ao renunciar à organização da COP-25, ao negar o aquecimento global e ao tratar com disparate a ciência, a reputação do país foi à lona. O passivo acumulado despertou suspeitas e, a posteriori, protestos. Hoje, o peso recai nos ombros da economia e impinge danos à reputação da agricultura brasileira. Os dados que comparam o desmatamento na Amazônia de junho de 2019 com junho de 2020 comprovam o crescimento desenfreado da destruição da floresta.

Como não dá para voltar o relógio do tempo, é preciso sair desse atoleiro urgentemente. Daqui em diante, o governo precisa demonstrar de forma crível e objetiva quais são as suas propostas. Qual é a sua meta. E, por fim, quais são os resultados tangíveis que pretende alcançar. Adicionalmente, é preciso começar a esboçar uma estratégia coordenada entre agricultura, economia e meio ambiente – o triunvirato de qualquer política externa

nacional – para esboçar as linhas da atuação do Brasil para a COP-26 a realizar-se, no próximo ano, em Glasgow, na Escócia.

Enquanto o Estado brasileiro não souber empregar todos os seus recursos de poder em conspícua política de Estado, a dependência da agricultura, do ingresso de capitais e de acesso a mercados seguirão sendo fatores imperiosos para a geração de riqueza, renda e empregos. A diplomacia brasileira, expressão inequívoca da expansão do agribusiness e ferramenta vital de nossa inserção nas cadeias globais de valor, precisa voltar a funcionar consentaneamente à serviço do Brasil.

Para essas tarefas, não resta a menor dúvida de que há gente no governo preparada e disposta a mudar os rumos desse atraso auto imposto. Felizmente, há ainda autoridades e profissionais qualificados que não querem deixar o Brasil se tornar “paria para investimentos” e isolado internacionalmente. Se for possível orquestrar uma estratégia coordenada, longe de falsas narrativas e da irracionalidade que comanda os acontecimentos na política ambiental brasileira, será possível transformar a “maldição” novamente em um grande trunfo.

HUSSEIN KALOUT –– é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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