REUTERS/Dylan Martinez
REUTERS/Dylan Martinez

Análise: Melhor para May é esquecer tudo e começar Brexit do zero

Quando se trata do Brexit, May é completa e definitivamente impotente. E seu inimigo mais perigoso não é uma obstinada União Europeia ou o Partido Trabalhista da oposição, mas a fanática ala de direita de seu próprio Partido Conservador

Dawn Foster / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2019 | 05h00

O que acontece quando as derrotas históricas se tornam comuns? Mais uma vez, a primeira-ministra Theresa May arrastou seu plano para o Brexit à Câmara dos Comuns. Quando se trata do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeiao único problema que a ocupa desde que assumiu o cargo, em julho de 2016, May é completa e definitivamente impotente. E seu inimigo mais perigoso não é uma obstinada União Europeia ou mesmo o Partido Trabalhista da oposição, mas a fanática ala de direita de seu próprio Partido Conservador. Seus detratores mais brutais sentam-se atrás dela durante as votações no votos no Parlamento e, em seguida, visitam estúdios de rádio e televisão, alegremente criticando-a o resto do tempo.

Sua última “derrota histórica” foi em janeiro, quando um acordo quase idêntico definindo os termos da saída da Grã-Bretanha da União Europeia foi aniquilado. Desde então, ela tem adiado várias vezes trazer o assunto para uma votação, na esperança de que algo possa mudar.

Por um breve período em 12 de março, até parecia que seria possível. Talvez o Brexit finalmente passasse para a próxima fase, em vez de empacar indefinidamente. Em 11 de março, May foi sozinha para Estrasburgo, na França, a sede do Parlamento Europeu, implorar por concessões e garantias suficientes dos europeus para que ela pudesse persuadir os rebeldes conservadores a votar em uma nova versão do mesmo “Acordo de Saída” que eles “historicamente” derrotaram em janeiro.

Naquela noite, ela apareceu em uma coletiva de imprensa convocada às pressas com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciando as supostas mudanças, enquanto em Londres um de seus representantes foi ao Parlamento para vender o plano.

Isso seria o suficiente para fazer com que o fraco acordo de May passasse? Não. Na tarde de 12 de março, seu próprio procurador-geral apresentou sua opinião: as “concessões” não alteraram a substância do acordo. Ela não teve a menor chance.

Nos últimos meses, May havia confiado no temor gerado por um Brexit “Sem Acordo” para pressionar o Parlamento a votar em seu acordo. “É o meu caminho ou fora para a borda do penhasco”, ela ameaçou. Essa foi a estratégia por meses: acelere o cronograma antes do prazo final de 29 de março e parta do princípio de que o Parlamento (ou pelo menos um número suficiente de seus membros) entrará na linha para proteger a economia da Grã-Bretanha e suas próprias reputações, em vez de enfrentar o caos econômico e o constrangimento político de uma saída desordenada.

Mas com apenas 17 dias à frente, não está funcionando. Os defensores do Brexit ainda consideram o acordo de May muito fraco e prefeririam cair fora da Europa - e canibalizar a economia britânica sobre os destroços. Enquanto isso, o Partido Trabalhista, sensatamente, não quer nada com que facilite o Brexit de May. Essa é uma confusão dos conservadores e eles que lidem com ela, e quaisquer repercussões devem ser colocadas diretamente em sua porta. Cada vez mais, May vem sugerindo que o Brexit poderia ser adiado – sabe-se lá por quanto tempo.

Nos próximos dias, haverá mais votações “históricas” no Parlamento. Primeiro, os membros votarão se querem sair da União Europeia sem um acordo. Por sorte, a maioria é suficientemente sensata para votar contra isso. O próximo passo: uma votação para saber se a Grã-Bretanha deveria pedir à União Europeia uma prorrogação do Brexit.

Mas mesmo que haja um adiamento, é difícil ver o que poderá mudar. Juncker disse a May que “não haverá uma terceira chance” de renegociar. A política em torno do Brexit parece irreversivelmente emperrada. É por isso que a única opção que faz sentido neste momento é uma nova eleição. Se o Parlamento não conseguir fazer nada, vamos eleger um novo.

É uma opção arriscada. Uma eleição geral não pode ser realizada nos próximos 17 dias. Isso exigiria retardar o Brexit por meses. A data mais próxima possível para uma eleição é 25 de abril. E May tem bons motivos para temer os resultados: na última vez que ela convocou uma eleição, em 2017, esperava ganhar um mandato para sua política para o Brexit e acabou, em vez disso, perdendo assentos no Parlamento.

Se há algo no qual essa primeira-ministra é perita, é em perder. Mas agora o Parlamento está totalmente congelado. May não tem poder e nenhum caminho a seguir - e nada mais a perder. Ela pode muito bem decidir queimar tudo e tentar recomeçar de novo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.