Denis Balibouse/Reuters
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Análise: Mesmo com ameaças, Erdogan prefere acordo com Rússia

Ataque turco em grande escala ainda é uma possibilidade, mas é mais provável que presidente diminua presença militar na Síria em troca de protagonismo na decisão sobre o futuro do país

Jonathan Spicer e Khalil Ashawi, Reuters

29 de fevereiro de 2020 | 05h00

Com quase um milhão de refugiados reunidos na fronteira da Síria com a Turquia, em meio a uma ofensiva militar do governo sírio, as opções do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, estão cada vez mais raras. Ele foi surpreendido com a ajuda da Rússia em Idlib e o risco de um conflito regional agora é alto. No entanto, Erdogan ainda tem esperanças de que um acordo com Moscou ofereça uma saída para a crise. Contudo, ele já avisou que expulsará as tropas do presidente sírio, Bashar Assad, do território tomado nos últimos meses. 

Enquanto essa ofensiva não vem, os sírios continuam a ganhar terreno com apoio dos russos. Militares turcos, oposição síria, diplomatas e analistas disseram que um ataque turco em grande escala ainda é uma possibilidade, mas é mais provável que Erdogan chegue a um acordo com Moscou e tenha de retirar parte da sua presença militar na Síria em troca de um protagonismo maior na decisão sobre o futuro do país.

Diante da supremacia aérea russa em Idlib, porém, Erdogan avalia firmar um cessar-fogo com Putin, no qual o turco recua, ao mesmo tempo que se afasta da obrigação de gerenciar a crise dos imigrantes. A Turquia, que se opõe a Assad e apoiou alguns dos combatentes rebeldes que tentam derrubá-lo, espera restabelecer o acordo de 2018, firmado em Sochi, que pedia uma zona de desmilitarização em Idlib. Hoje, as forças do governo sírio tomaram metade da província e Assad prometeu recuperar “cada centímetro” de seu país. 

Erdogan queria que russos, alemães e franceses se encontrassem no dia 5 para discutir o tema, mas o Kremlin rejeitou o convite, por defender que Assad retome o controle total da Síria, incluindo uma faixa estreita em Idlib, ao longo da fronteira turca, hoje controlada em parte por Erdogan e policiada pelos russos.

Outro grande motivo para Erdogan tentar um acordo é técnico. Uma ofensiva enfrentaria o domínio aéreo da Rússia e representaria enormes riscos para os turcos. 

Embora suas forças sejam a segunda maior da Otan, a Turquia, provavelmente, dependeria de unidades de artilharia próximas à fronteira, porque carece de defesas terra-ar fabricadas nos EUA, depois que optou, no ano passado, por comprar os sistemas de defesa antiaéreos S-400 da Rússia. Portanto, os membros da Otan poderiam fornecer equipamentos e informações à Turquia, mas não poderiam intervir em solo sírio. 

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