Pau Barrena / AFP
Pau Barrena / AFP

Análise: Mobilização na Catalunha segue manual de Hong Kong

Do bloqueio do aeroporto aos folhetos traduzidos do chinês os ativistas favoráveis à independência catalã são abertamente inspirados pelas técnicas de mobilização dos manifestantes pró-democracia de Hong Kong

Thomas Perroteau / France Presse, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 05h00

Do bloqueio do aeroporto aos folhetos traduzidos do chinês, tanto nas ruas como nas redes sociais, os ativistas favoráveis à independência catalã são abertamente inspirados pelas técnicas de mobilização dos manifestantes pró-democracia de Hong Kong.

Pouco depois da divulgação, na segunda-feira, das duras penas de prisão contra nove líderes independentistas, às 12h59, hora local, 240 mil usuários do aplicativo Telegram receberam um chamado para dirigir-se ao aeroporto de Barcelona. 

“Objetivo: paralisar as atividades do aeroporto de Barcelona”, como aconteceu com o de Hong Kong nos últimos meses.

A mensagem foi enviada por uma organização chamada Tsunami Democrático.

Pelo mesmo aplicativo foram distribuídos centenas de falsos cartões de embarque, para atrapalhar os controles. Não se conseguiu isso, mas houve um congestionamento gigantesco nos acessos ao aeroporto, o segundo maior da Espanha, e cem voos foram cancelados.

Em Hong Kong, os ativistas chegaram a comprar passagens aéreas a baixos preços para entrar no terminal.

O Tsunami Democrático terminou uma de suas mensagens com a hashtag #BeWater (“Seja como a água”), uma tática de manifestação baseada em imprevisibilidade e velocidade, nascida em Hong Kong.

A hashtag, uma frase usada pela lenda do kung fu de Hong Kong, Bruce Lee, aparece nas contas do Twitter em catalão.

A Mossos d'Esquadra, polícia regional catalã, confirmou que os manifestantes usaram alguns ponteiros de laser contra agentes em Barcelona. "Populares em Hong Kong, aqui eles não são uma prática muito comum”, disse um porta-voz do órgão à France Presse.

O lema "Vamos fazer da Catalunha uma nova Hong Kong" também circula pelas redes sociais.

"Agora as pessoas precisam ir para a rua, todos os tumultos vêm de lá, olhe para Hong Kong!", disse Victoria Santos, uma manifestante de 62 anos.

O movimento catalão, que busca apoio internacional em seu braço de força com Madri logo viu com interesse o movimento nascido em Hong Kong em junho.

“Hong Kong deu o exemplo ao dar uma dimensão global a um conflito local”, escreveu o editorialista independente Jordi Barbetam em setembro no jornal catalão El Nacional.

Uso generalizado do Telegram é aprendizado

O uso generalizado de mensagens do Telegram na Catalunha "é um aprendizado direto dos protestos de Hong Kong", disse um chefe do coletivo separatista Picnic pela República, que pediu anonimato.

A principal organização civil independente, a Assembleia Nacional da Catalunha, treinou seus integrantes sobre o uso desses canais digitais, que “garantem a confiabilidade ou a confiança do usuário”, de acordo com seu secretário nacional, Jordi Vilanova.

Em algumas ocasiões, os independentistas simplesmente usam os folhetos popularizados na ex-colônia britânica. Por exemplo, um infográfico que explica como agir na frente dos caminhões lança-água, compartilhada nas redes, vem ainda com as instruções em chinês.

Impressos distribuídos na quinta-feira por militantes radicais dos Comitês de Defesa da República (CDR) reproduziam outro infográfico sobre os acessórios usados pelos ativistas em Hong Kong para se protegerem. Outros propuseram o uso do aplicativo participativo @hklive, que localiza em tempo real a posição da polícia em Hong Kong.

Um grupo de independentistas catalães criado no fim de agosto adotou os capacetes amarelos, distintivos dos manifestantes em Hong Kong, batizados como "Grocs Cascos" em catalão.

Personalidades como os artistas chineses Ai Wei e Baduciao e a ativista de Hong Kong Denise Ho Wan-See manifestaram seu apoio às mobilizações catalãs nas redes sociais.

 “Há simpatias entre essas minorias que não podem se expressar”, embora isso não signifique "que agora desenvolveremos uma estratégia conjunta com a população de Hong Kong”, disse Vilanova. De sua parte, o jornal estatal China Daily divulgou na terça-feira um vídeo de brigas entre manifestantes e polícia no aeroporto de Barcelona, para prevenir que “o separatismo não seja tolerado em nenhum país”, com a hashtag #HongKong. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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