Gil Cohen-Magen / AFP
Gil Cohen-Magen / AFP

Análise: Mudança da embaixada continua na agenda, e continua sendo um erro

Projeto não parece ser uma ideia morta e enterrada para atual governo

Salem Nasser *, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 10h21

Desde a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, a mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém foi tema central das discussões sobre o que seria a política externa de seu governo. 

Eleito Bolsonaro e chegado o momento de implementar a mudança, o novo presidente recuou diante de inúmeras críticas e optou pela alternativa mais palatável de abrir um escritório comercial naquela cidade.

A transferência da embaixada, no entanto, não parece ser uma ideia morta e enterrada para o atual governo. A discussão continua viva e a mudança segue sendo uma possibilidade. 

Assim, a abertura de um escritório, dependendo de como se der o desfecho da questão central, poderá ter sido apenas um recuo tático, e um passo preliminar para preparar a instalação da embaixada. Mas se as críticas vencerem, terá sido o máximo que o governo se sentiu apto a fazer.

Uma pergunta fundamental, entretanto, deveria ser formulada para dar sustentação a este debate: de onde vem a grande necessidade sentida por este governo, ou por muitos dentro dele, de conduzir a mudança da embaixada?

Uma dica, na busca pela resposta, é procurar por aqueles a quem a mudança interessa. Para o Brasil, cujos interesses devem ser os únicos guias da política externa, certamente não há nada a ganhar no processo. 

Não há qualquer benefício que possa advir para o Brasil, desse passo, que não possa ser conquistado sem ele. Não há nada que Israel possa oferecer ao Brasil que não esteja ao nosso alcance sem o gesto.

Evidentemente, a Israel a coisa interessa, porque presta legitimidade à sua ocupação e à sua narrativa, mas os interesses do país não devem ser o norte da nossa política externa, nem do nosso governo.

A mudança pode interessar a setores sociais, religiosos ou empresariais brasileiros, mas estes não têm a representatividade suficiente para fazer com que, em seu nome, se sacrifiquem os interesses do país, se estes estiverem presentes no espírito dos governantes. 

A alternativa, é claro, está em que atender aos interesses desses setores talvez resulte em atender também aos interesses individuais, pessoais, dos governantes e dos políticos que advogam a mudança, quer sejam estes interesses afetivos, religiosos, negociais ou de qualquer outra natureza.

Desde o início, as críticas ao projeto colocaram à frente, primeiramente, o risco de deterioração de nossas relações com os países árabes, e logo com os países muçulmanos. 

E os perigos para nosso comércio, especialmente na agropecuária, de fato pesaram para a hesitação e o recuo. Hoje, no entanto, o Brasil, alinhando-se inteiramente aos clientes dos Estados Unidos, percebe que, pelo menos em relação a alguns dos países árabes, o risco é menor porque, no fundo, apesar de um ou outro discurso de indignação, estão todos a serviço da mesma agenda. 

O risco, agora visto como mitigado, talvez já não sustente a hesitação e abra espaço para a implementação do projeto. Talvez, portanto, não percamos tanto em comércio, mas sim em estatura. Porque damos um passo que quase ninguém no mundo deu e porque o fazemos de graça e contrariamente a nossos interesses.

* É professor de direito internacional na FGV Direito SP

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