AP Photo/Hassan Ammar
AP Photo/Hassan Ammar

Análise: Não revidar, a melhor estratégia contra os EUA

Suspeita-se que o regime sírio e o Irã não vão retaliar contra os americanos porque estão dominando um campo de batalha que Donald Trump prometeu deixar e não vão querer se envolver em qualquer ação que possa impedir uma saída dos EUA

Paul Sonne* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 06h30

Cenários possíveis para uma retaliação incluem ataques de milícias apoiadas pelo Irã contra as forças dos EUA no Oriente Médio, incidentes crescentes contra forças dos EUA e seus aliados na Síria ou "respostas assimétricas", como ciberataques inteiramente fora do próprio teatro da guerra.

EUA acusam Síria de ter usado gás sarin e cloro no ataque a Duma

A ação militar ocorre quando Washington praticamente desistiu de buscar a remoção de Assad durante mais de sete anos na guerra civil da Síria. Trump quer que o Pentágono retire as tropas dos EUA depois que a milícia curda liderada por Washington, na Síria, acabe com os remanescentes do grupo terrorista Estado Islâmico.

A saída das tropas norte-americanas, segundo os estrategistas militares, provavelmente abrirá caminho para que Assad consolide o controle do país, apoiado pela Rússia, pelo Irã e pela milícia libanesa Hezbollah.

O resultado é o que o secretário de Defesa, Jim Mattis, descreveu na quinta-feira como "impulsos opostos". De uma parte, Trump quer que os EUA não tenham nada a ver com a Síria. De outra, ele quer ditar normas de comportamento no campo de batalha da Síria que o perturbem quando violadas.

Pence: agimos em resposta ao uso de armas químicas na Síria uma semana atrás

Aqueles que têm uma visão obscura de ataques seletivos em resposta ao uso de armas químicas dizem que os EUA desistiram de tentar garantir a saída de Assad, o que significa que suas forças continuarão a matar quem quer que queiram, enquanto consolidam o controle, mesmo se o fizerem com o uso de armas convencionais.

Desde que você tenha uma estratégia que deixe Assad no lugar e permita que ele massacre seu povo como achar melhor, ele o fará", disse Kenneth Pollack, ex-analista da CIA e bolsista residente no American Enterprise Institute. "E ele provavelmente recorrerá a agentes de guerra química."

Pollack suspeita que o regime sírio e o Irã não vão retaliar contra os EUA porque eles estão dominando em um campo de batalha que Trump prometeu deixar, e não vão querer se envolver em qualquer ação que possa impedir uma saída dos EUA, que representaria uma grande vitória para eles.

Para alguns cientistas políticos, essa lógica representa um caminho sem volta, caso os EUA estejam sendo compelidos à ação militar por motivos humanitários, dependendo apenas do tipo de morte que está ocorrendo.

Conselho de Segurança da ONU rejeita proposta russa de condenação a ataque

"Quão horrível é saber que estamos particularmente perturbados com uma maneira de matar crianças sírias, mas não com a outra?" perguntou Mara Karlin, uma ex-oficial do Pentágono durante o governo Obama e professora associada da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados.

O atrativo desses ataques, segundo Pollack, é que eles são "operações militares sentimentais", que fazem o público americano pensar que alguma coisa foi feita para ajudar os sírios. "Não, nós não fizemos", disse Pollack. "Quinhentos mil deles morreram e não fizemos nada." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* PAUL SONNE É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM SEGURANÇA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.