Spencer Platt/Getty Images/AFP
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Análise: Não sabemos o resultado da eleição, mas a mídia e organizações de pesquisa estragaram tudo

Jamais deveríamos dar muito crédito às pesquisas de opinião, e aos que as interpretam, como nos acostumamos a fazer

Margaret Sullivan, The Washington Post

05 de novembro de 2020 | 11h46

Na madrugada de quarta-feira, havia muitas coisas que milhões de americanos ansiosos desconheciam. Principalmente, não sabiam quem será o presidente eleito. O que em si não era inesperado, tampouco algo terrível.

Mas depois de horas e horas prestando atenção no noticiário, na noite de terça-feira, e observando os resultados da eleição até aquele momento, há algumas coisas das quais temos certeza.

 

- Jamais deveríamos dar muito crédito às pesquisas de opinião, e aos que as interpretam, como nos acostumamos a fazer. As pesquisas parecem irrevogavelmente furadas, ou pelo menos é o que compreendemos do que devemos levar a sério.

A liderança supostamente ampla que Joe Biden apresentou durante semanas não durou muito mais do que até a noite de terça-feira. Tratava-se de uma vantagem, lembremos, que segundo muitos previam poderia resultar em uma vitória esmagadora de Biden, por exemplo, contribuir para pintar o Senado de azul e dar aos democratas vitórias incríveis em estados vermelhos, como Ohio e Flórida.

Não levou muito tempo para este sonho se dissipar em um processo mais típico de divisão dos estados em vermelhos e azuis, com o acréscimo de muitas incógnitas. Mas nenhuma delas chegou ao claro repúdio de Trump, como muitas pesquisas nos fizeram pensar que ocorreria. (E quanto à “agulha" do The New York Times que projetou os resultados para Geórgia, Carolina do Norte e Flórida? Assim como em 2016, o modo como o gráfico se torceu e serpenteou durante toda a noite, mais uma vez conseguiu provocar um ataque cardíaco, ou, dependendo da nossa política, náusea).

- Os noticiários, em geral, não fizeram um bom trabalho de cobertura do voto dos latinos. “Um dia depois desta eleição, pretendo escrever um artigo sobre os latinos, uma categoria étnica em que se juntam artificialmente cubanos brancos com porto-riquenhos pretos e indígenas guatemaltecos ...”, tuitou Nikole Hannah-Jones do New York Times.

Uma compreensão mais matizada teria abrandado a surpresa provocada pela maneira de como partes cruciais da Flórida votaram – particularmente o forte apoio ao presidente Trump na área ao redor de Miami. Uma exceção foi um artigo da revista Atlantic de Christian Paz, What Liberals Don’t Understand About Pro-Trump Latinos, que mostrava que o presidente conseguiu captar “a visão de mundo única (destas pessoas), arraigada em convicções profundas em termos de individualismo, oportunidade econômica e valores sociais tradicionais”.

- Trump fez um serviço perfeito encorajando o ódio pela mídia. Então, a cobertura política e os intermináveis comentários convencionais sobre o tratamento desastrado da pandemia letal do presidente mudara tudo e teria um enorme preço político a pagar em razão disso? Aparentemente não foi bem assim.

Ao contrário, tudo se resumiu fundamentalmente à política tribal vermelha e azul. Resumiu-se a um presidente excepcionalmente hábil em atribuir rótulos destruidores aos seus adversários políticos, em desorientar e, inclusive, em mentir. (Por exemplo, os seus adversários são “esquerdistas radicais”, ou no caso de Biden, o fato de ter escolhido como vice Kamala Harris (“um monstro”.) E, é claro, a Fox News continuou sendo a arma nem tão secreta do presidente, martelando a sua mensagem, e servindo de seu constante guru, musa e megafone. Na manhã de terça-feira, a Fox & Friends divulgou uma entrevista “exclusiva” com Trump – sem limite de tempo, em outras palavras, como ele costuma ter diariamente.

- Apesar das previsões de que em 2020 as coisas seriam muito diferentes – muito diferentes de 2016 – tudo pareceu terrivelmente familiar na noite do mesmo dia. “Estamos vendo resultados estáticos", comparados a 2016, disse Rachel Maddow, completamente sem energia, na MSNBC, pouco antes das 22:00.

Em 2016, a mudança chocante da aposta democrata dada como segura parecia mais refrescante e, de certo modo, mais fácil de compreender: Hillary Clinton, afinal, era uma “candidata imperfeita”, todos se apressaram a comentar. E evidentemente, o anúncio tardio do ex-diretor do FBI James Comey que revigorou o escândalo dos e-mails foi um tiro certeiro.

Este ciclo seria diferente, supunha-se. Biden, afinal, é um homem branco absolutamente irreprochável – talvez pouco envolvente, mas totalmente decente. Não houve nenhuma ‘surpresa de outubro’ para levá-lo a cometer um tropeço. Ele escolheu uma mulher preta para integrar a sua chapa, o que deveria ajudá-lo a conseguir alguns eleitores, e provavelmente ajudou, mas, provavelmente, não foi bem com outros.

Mas, o mais notável é que nada disso pareceu ter muita importância. Quando o correspondente da CBS News, John Dickerson, entrevistou alguns eleitores para o programa “60 Minutes” de domingo passado, uma mulher branca, de um estado decisivo, leal a Trump – disse que simplesmente não acreditava nas coisas negativas ou prejudiciais que falavam do presidente que ele havia desenterrado. Não, tudo isto é coisa da mídia que fabrica fake news, acrescentou. 

E esta é uma das grandes realizações de Trump: fazer com que enormes parcelas da população se virem contra fatos complexos para abraçar a confortante simplicidade da tribo.

Novamente, isto ainda não acabou. Talvez venhamos a ter um presidente Biden e um vice-presidente Harris. Há muitas coisas que ainda não sabemos. Mas pelo menos uma coisa é certa. Tudo isto não aconteceu conforme nós prevíamos. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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