Tom Brenner/Reuters
Tom Brenner/Reuters

Análise: Nem mesmo o coronavírus foi capaz de frear a guerra de Trump contra a imprensa

O antagonismo em relação à mídia pode se manifestar como uma cruzada organizada em alguns casos, mas também como uma cultura - uma linguagem partilhada pelo presidente e seus aliados à direita

Manuel Roig-Franzia e Sarah Ellison, The Washington Post

01 de abril de 2020 | 04h00

O presidente Donald Trump veio ao púlpito da sala de imprensa da Casa Branca com uma expressão taciturna na tarde de 19 de março, dia em que a contagem de casos confirmados do coronavírus nos EUA deveria alcançar a marca de 10 mil.

Mas, depois de uma hora de uma exposição repleta de dados desanimadores, uma correspondente da conservadora One America News Network conhecida por sua defesa do presidente fez a Trump uma pergunta, e um sorriso veio aos lábios dele.

Ela estava perguntando a respeito das trapaças da “imprensa esquerdista”, um dos assuntos preferidos do presidente.

“Fico impressionado quando leio o Wall Street Journal, sempre tão negativo", começou ele. “Fico impressionado quando leio o New York Times, não dá nem para… Eu mal leio, não o distribuímos mais na Casa Branca, e o mesmo vale para o Washington Post..."

Ao lado dele estavam o cirurgião-geral, o comissário da FDA e outras autoridades esperando para responder perguntas a respeito de uma pandemia que, de acordo com o temor dos especialistas, pode matar milhões de pessoas no mundo e arruinar a economia global. Mas nem mesmo a crise que definirá sua presidência permitiu um cessar-fogo na guerra constante, multifacetada e assimétrica da Equipe Trump contra a imprensa.

Na verdade, a reação inicial de Trump, subestimando o coronavírus, decorreu em parte da crença, estimulada pelo genro, Jared Kushner, segundo a qual a imprensa estaria usando a pandemia como outra forma de atacá-lo, de acordo com quatro assessores de Trump que falaram sob condição de anonimato para poderem comentar debates internos. Um porta-voz de Kushner não respondeu às tentativas de contato.

O antagonismo em relação à imprensa pode se manifestar como uma cruzada organizada em alguns casos, mas também como uma cultura –uma linguagem partilhada pelo presidente e seus aliados à direita. As batalhas deles são travadas nos tribunais, nas redes sociais e nos comícios em que as críticas de Trump aos jornalistas que cobrem sua agenda estimulam seus eleitores a provocar as equipes jornalísticas presentes nesses eventos.

Com frequência, o objetivo dessa guerra parece ser imunizar o presidente das críticas e denúncias ao minar a confiança do público nas notícias veiculadas pela imprensa tradicional. Os esforços mais organizados incluem uma saraivada de processos de difamação, golpes bem financiados para registrar evidências de parcialidade da imprensa e campanhas de constrangimento público contra repórteres específicos.

Mas o tom é definido por ele, para quem tudo parece frequentemente ser apenas um tipo de esporte. Trump estava apenas esquentando para começar a crítica diária à imprensa – em um dia em que o total de casos de coronavírus nos EUA ultrapassaria os 13 mil (no momento da publicação dessa reportagem, já são mais de 122 mil casos, com mais de 2.100 mortes). Ele passou quase três minutos regurgitando teorias da conspiração e desacreditando o trabalho desses profissionais, em fala transmitida ao vivo pelos canais e sites dos meios jornalísticos que ele considera seus inimigos.

“Acho que inventei uma expressão, 'fake news' (notícias falsas)“, prosseguiu ele. “São notícias corruptas. ... Estão dizendo que nosso trabalho é ótimo, todos dizem isso, e então lemos uma reportagem falsa. ... A imprensa é muito desonesta – estão tomando o partido da China, estão fazendo coisas que não deveriam."

Dois anos depois de Trump ter elogiado um candidato ao Congresso por derrubar um repórter com uma trombada, seus ataques verbais cada vez mais agressivos contra os repórteres – muitos dos quais ele critica nominalmente – levaram executivos preocupados a postarem guardas armados do lado de fora das redações, por medo da possibilidade de ele inspirar malucos a atacarem jornalistas.

“A maneira com que o presidente torna esses ataques pessoais – tendo como alvo jornalistas específicos – é perigosa", disse Dean Baquet, editor executivo do New York Times, por e-mail. Martin Baron, editor executivo do Washington Post, disse em comunicado respondendo aos ataques de Trump contra os jornalistas que tais investidas tinham “claramente o objetivo de submetê-los ao assédio e a ameaças". Mas ambos disseram que as constantes críticas do presidente não afetarão sua cobertura.

Mas, dentro dos círculos de Trump, tem-se a sensação de que as críticas à imprensa atenderam ao propósito dele diante do seu eleitorado, para quem esse comportamento seria uma reação justa a um establishment do jornalismo que, para eles, critica injustamente seu líder. “Não há dúvida", disse Tim Murtaugh, diretor de comunicação da campanha de Trump para as eleições de 2020, “que a hostilidade da grande imprensa em relação ao presidente é algo que deixa indignados os eleitores dele".

“Não acho positivo para a democracia que toda uma indústria seja tachada de inimiga", disse Sean Spicer, primeiro assessor de imprensa de Trump. “Mas é claro que isso é eficaz. Não estou dizendo que seja correto."

Trump adorava a imprensa. Cortejava repórteres com a promessa de acesso privilegiado, pedindo em troca uma cobertura positiva. Seu caminho ao status de celebridade foi adornado com perfis elogiosos e reportagens de revista de várias páginas promovendo o retrato do gênio dos negócios erguido pelo próprio mérito, e não o do herdeiro de um negócio bem-sucedido criado pelo pai.

“É alto, magro e loiro, com dentes branquíssimos, chegando a parecer Robert Redford", dizia um perfil de 1976 publicado no New York Times. Já nos anos 1980, Trump tinha se alçado à capa da Newsweek, aparecendo com as mãos na cintura, um sorriso que parecia digno do dono do mundo e a manchete: "Trump: um império de um bilhão de dólares e um ego comparável".

Enquanto presidente, Trump às vezes lamentou o fim do seu caso de amor com os autores de perfis e editores de capa que antes o consideravam tão irresistível.

“Tive boas relações com a imprensa durante 45 anos, mas o que diabos aconteceu depois disso?" indagou Trump a Anthony Scaramucci, diretor de comunicações da Casa Branca que durou pouco no cargo, de acordo com o relato deste ao Washington Post.

“Eu disse a ele, ‘Você declarou guerra! Deixou que Steve Bannon declarasse guerra’”, lembrou Scaramucci, referindo-se ao ex-diretor da campanha de Trump e assessor da Casa Branca (Scaramucci deixou o cargo no governo Trump depois de 11 dias quando veio à tona uma gravação dele criticando um repórter).

Alguns na Casa Branca tentaram conter essa caracterização generalista das “notícias falsas". Spicer lembrou de ter analisado com o presidente reportagens que o tinham desagradado, parágrafo por parágrafo. “Conversávamos sobre aquilo", disse Spicer ao Washington Post. “Então, em algum momento ele as desconsiderava tachando-as de falsas."

Trump passou boa parte de sua campanha de 2016 criticando a imprensa. Mas foi somente depois de tomar posse que ele emitiu algo equivalente a uma declaração formal de guerra.

Em uma tarde de fevereiro de 2017, isolado em Mar-a-Lago, ele usou sua conta no Twitter para declarar em letras maiúsculas que a “mídia das NOTÍCIAS FALSAS" é “inimiga do povo americano". Citou especificamente New York Times, CNN, NBC, ABC e CBS.

A declaração do presidente naquele dia deixou chocado o mundo do jornalismo e os críticos dele. Mas teve adesão entre os conservadores que há muito acreditam em uma suposta parcialidade da imprensa , favorecendo a esquerda.

Três anos mais tarde, a difamação criou raízes nos sites conservadores e nas longas filas de eleitores nos comícios de Trump, funcionando como uma animação GIF que se repete infinitamente nas telas da consciência nacional.

Mestre das frases de efeito, Trump criou com os “inimigos do povo” um grito de guerra que parece ter penetrado grande parte da psiquê nacional. De acordo com pesquisa de opinião recente, um terço dos americanos já concorda com ele, apontando a imprensa como inimiga.

Foi certamente um recado que ecoou entre alguns importantes aliados do presidente.

Cobrindo as primárias de New Hampshire em fevereiro, o correspondente David Wright, da ABC News, viu-se em uma conversa informal a respeito do ramo do jornalismo. “Não acho que estamos muito interessados nos eleitores", queixou-se ao interlocutor. Ele disse que os jornalistas não cobram Trump o bastante, mas “tampouco damos a ele o crédito pelas coisas que faz".

Wright não percebeu que sua conversa estava sendo gravada. Semanas mais tarde, imagens feitas com uma câmera escondida foram divulgadas ao mundo como um escândalo: “Importante repórter da ABC Reporter revela que chefia manipula notícias relevantes para o eleitorado... Emissora se recusa a reconhecer os acertos de Trump".

Foi obra do Project Veritas, grupo de provocadores conservadores que há dez anos organizam golpes para constranger grupos de esquerda e encontrar indícios de parcialidade política nas principais empresas jornalísticas – com substancial apoio financeiro de uma organização de caridade mantida pelos magnatas conservadores do petróleo, irmãos Koch.

A campanha é um exemplo da nova disposição da direita para manchar não apenas uma indústria, mas também seus membros individuais, colocando algumas redações em estado de alerta. Wright, que também foi gravado criticando a ABC News por promover as ofertas de entretenimento da Disney, empresa à qual pertence, foi suspenso após a campanha do Project Veritas. “Qualquer ação que prejudique nossa reputação de equilíbrio ou dê a impressão de sacrificarmos nossa imparcialidade desacredita a ABC News e os indivíduos envolvidos", disse um porta-voz da emissora.

Outra ofensiva de guerrilha foi preparada no ano passado por Arthur Schwartz, amigo de Donald Trump Jr., que se propôs a encontrar as publicações mais constrangedoras dos jornalistas nas redes sociais. Schwartz, que recusou os pedidos de contato para essa reportagem, usou um algoritmo para vasculhar as redes sociais, frequentemente recuando até a adolescência ou os anos de faculdade dos jornalistas, de acordo com uma fonte informada a respeito dos esforços dele que falou sob condição de anonimato para preservar sua estratégia.

Entre os esforços de Schwartz: um editor fotográfico da CNN que deixou o cargo depois de virem à tona publicações suas no Twitter datadas de 2011 citando “porcos judeus" (ele se desculpou, dizendo que repetia estupidamente gritos de guerra que aprendeu na adolescência), e um editor do New York Times, que pediu desculpas depois de serem reveladas publicações antissemitas suas no Twitter de dez anos atrás (descritas por ele como “tentativas fracassadas de humor polêmico"). Schwartz prometeu revelar mais publicações constrangedoras das redes sociais. “Há muito mais de onde essas vieram", publicou ele na plataforma.

Em certo ponto, Schwartz e seus aliados debateram a captação de dinheiro para a expansão da campanha, de acordo com o sócio dele. Em vez disso, ele tem apostado no próprio uso enérgico do Twitter e no efeito amplificador da mídia de direita. “Sou basicamente um... troll", disse ele ao Daily Beast no começo do ano.

Apesar das bravatas, os maiores furos revelados pelos esforços de Schwartz e pelo Project Veritas envolveram jornalistas relativamente desconhecidos, causado pouco (ou nenhum) estrago nas redações em questão – na verdade, as queixas mundanas de Wright a respeito de seus chefes corporativos indica uma saudável diversidade de pensamento nas redações. 

Em 2017, um agente do Project Veritas procurou o Washington Post oferecendo uma reportagem falsa a respeito do candidato conservador ao senado do Alabama, Roy Moore, aliado de Trump; mas, em vez disso, os jornalistas do Post identificaram as inconsistências na história e desmascararam seus elos com o Veritas. (O diretor do Project Veritas, James O’Keefe, disse posteriormente que o objetivo não era vender uma reportagem falsa para constranger o Post, e sim “expor o repórter para tirar dele declarações".)

Acontece que o Project Veritas tem amigos poderosos: o New York Times informou que Erik Prince, do setor de defesa terceirizada e irmão da secretária do ensino, Betsy DeVos, teria recrutado ex-espiões para ajudar o Project Veritas a se infiltrar em grupos democratas (Prince não respondeu aos telefonemas da reportagem; quando indagado, o Project Veritas não comentou os elos com Prince). E um novo processo da campanha de Trump contra a CNN cita um de seus vídeos que mostra um homem descrito como “informante da CNN" – de acordo com a rede, seria apenas um motorista de caminhão freelance – especulando que o presidente da CNN, Jeff Zucker, teria uma “vingança pessoal" contra o presidente.

“As pessoas precisam entender como isso funciona", disse Zucker em e-mail ao Post depois que o processo teve início. “O presidente e seus associados fazem comentários falsos e ameaças contra a imprensa momentos antes da campanha dele enviar um e-mail de captação de recursos fazendo referência a esses ataques. Não é coincidência, e sim uma operação coordenada de relações públicas para intimidar a imprensa, captar dinheiro e fortalecer o contato com um público disposto a aceitar mentiras como fatos."

Enfrentamentos entre um presidente e a imprensa não são novidade. Richard Nixon tinha jornalistas na sua lista de inimigos, enquanto o vice-presidente Spiro Agnew os descrevia como “incansáveis críticos pessimistas". Bill Clinton se queixava abertamente da cobertura do seu escândalo sexual na Casa Branca e, quando candidato, George W. Bush foi flagrado pelos microfones chamando um repórter do New York Times de “babaca de marca maior". O governo de Barack Obama apresentou um número recorde de processos contra fontes de jornalistas pelo vazamento de informações do governo, de acordo com a Associação pela Liberdade de Imprensa.

Mas, no dia 26 de fevereiro, Trump encontrou uma nova forma de maldizer a imprensa quando sua campanha de reeleição decidiu processar o New York Times. O processo alega que um editorial publicado 11 meses antes difama a campanha dizendo que “a campanha de Trump e a oligarquia de Vladimir Putin...tinham um amplo acordo entre si". Foi exigida uma indenização de milhões de dólares.

O advogado que deu entrada no processo foi Charles Harder, conhecido pelo estilo agressivo, que ganhou o processo de US$ 115 milhões que resultou na recuperação judicial do site Gawker depois de publicar um vídeo caseiro de sexo envolvendo o lutador Hulk Hogan.

Quatro dias depois, Harder processou o Washington Post em um tribunal federal, queixando-se de editoriais escritos em junho do ano passado por Greg Sargent e Paul Waldman, para quem a campanha de Trump tinha sinalizado a disposição de aceitar ajuda de governos estrangeiros. O editor do Post, Fred Ryan, descreveu o processo como “trama vergonhosa que tenta intimidar as organizações jornalísticas que tentam informar os eleitores a respeito de assuntos importantes que estarão em jogo na próxima votação".

Quatro dias depois do processo contra o Post, Harder deu entrada em um processo contra a CNN, envolvendo uma coluna opinativa de Larry Noble, ex-assessor-geral da Comissão Eleitoral Federal que também retratou a campanha de Trump como aberta ao auxílio dos russos.

Katherine Bolger, sócia do escritório de advocacia Davis Wright Tremaine, especializada em questões envolvendo a primeira emenda, descreveu os processos como “quase ridículos”, indicando que seriam provavelmente arquivados. “São artigos que criticam o presidente, e não a campanha dele, o que significa que o processo é movido pelo querelante errado", disse ela. E os artigos “são basicamente opinativos, baseando-se em fatos públicos", o que significa que estariam protegidos pela liberdade de expressão.

“Nosso país foi fundado com base na capacidade de criticarmos nossos líderes políticos", disse Katherine. “Temos permissão para comunicar informações verdadeiras de maneira crítica ao governo."

Em comunicado, a principal assessora jurídica da campanha, Jenna Ellis, sustentou que embora os artigos em questão sejam apresentados como opinativos, “as afirmações em si são suposições factuais equivocadas, e não opiniões, estando portanto sujeitas à lei de calúnia e difamação".

Mas Ted Boutrous, sócio do escritório de advocacia Gibson, Dunn & Crutcher especializado na primeira emenda constitucional, diz que os processos apresentam justificativas tênues para uma alegação de difamação, com pouca chance de serem aceitos. Ele disse que, em vez disso, o mais provável é que inspirem os eleitores de Trump a doar para a campanha de reeleição dele. Trump “tem o maior palanque político do mundo, mas, em vez disso, recorre a processos frívolos", disse Boutrous.

Katherine prevê que o arquivamento dos processos seja parte da estratégia política da equipe de Trump. “O presidente poderá então publicar no Twitter suas queixas contra os juízes democratas que arquivaram os processos."

E alguns temem que os repetidos ataques do presidente à imprensa possam levar a um efeito assustador nos tribunais - “juízes e jurados podem se mostrar mais céticos diante de casos defendidos pelos editores", disse David McCraw, vice-advogado-geral do New York Times.

De fato, os esforços dos aliados de Trump nos ataques à imprensa podem ter impacto quase imperceptível se comparados aos comentários improvisados do próprio presidente.

Nos meses mais recentes, Trump chamou Chris Wallace, respeitado apresentador do Fox News Sunday" de “desagradável e irritante", comentando que ele “jamais será como o pai, Mike!", lendário correspondente do 60 Minutes

Também atacou Peter Baker, famoso repórter do Times, descrevendo-o como “amante de Obama". E, quando seu processo de impeachment chegou ao senado, ele fez uma pausa no Fórum Econômico Mundial de Davos para chamar de “perdedores incorrigíveis” os repórteres Philip Rucker e Carol Leonnig, do Washington Post, ganhadores do Pulitzer, em mensagem publicada no Twitter.

No dia 20 de março, Peter Alexander, da NBC, perguntou a Trump se o governo dele tinha oferecido "uma falsa esperança" ao comentar o potencial de remédios ainda não testados, mas emendou com uma pergunta fácil para o presidente: o que ele diria aos cidadãos que têm medo da crise do coronavírus?

“Eu diria que você é péssimo repórter, é isso que eu diria", respondeu o presidente. “Essa é uma pergunta muito injusta."

Roger Ailes, já morto, ergueu toda uma emissora com a Fox News a partir das queixas dos conservadores em relação à grande imprensa. Mas Trump levou essa mentalidade a extremos ainda maiores. “Ele fez todos na direita usarem a mesma terminologia, o que é uma grande mudança", destacou Spicer.

A rapidez de Trump em classificar as reportagens de falsas criou um novo perigo para as organizações jornalísticas: qualquer erro jornalístico ou factual (mesmo se corrigido prontamente) pode se tornar um argumento no discurso segundo o qual a imprensa estaria contra o presidente.

“Não podem cometer erros, pois eles serão usados como armas contra o jornalismo", disse Doug Heye, antigo estrategista republicano e crítico de Trump, para quem a retórica do presidente pode colocar em risco as vidas de jornalistas.

A ironia é que o próprio Trump faz declarações falsas – mais de 16 mil desde o início do seu mandato, de acordo com a ferramenta Washington Post Fact Checker – que o presidente quase nunca corrige. Independentemente disso, ele, seus amigos e parentes logo atacam cada deslize da imprensa – mesmo que tenha sido prontamente corrigido pelos jornalistas envolvidos – e esse desprezo ecoa em círculos cada vez maiores, repetido ad infinitum por seus aliados políticos e seus mais de 70 milhões de seguidores no Twitter.

Um exemplo foi uma manchete de obituário muito criticada no Washington Post, que apareceu online brevemente no dia 27 de outubro, mas sobrevive para sempre nas capturas de tela feitas pelos críticos do Post. Referia-se ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, como “austero estudioso da religião no comando do Estado Islâmico" quando ele foi morto. Os conservadores criticaram a manchete por não descrevê-lo especificamente como terrorista, ainda que o Estado Islâmico seja amplamente conhecido nos EUA como organização terrorista.

Um comunicado do Post reconhecendo o equívoco na manchete pouco ajudou a conter a indignação. Em mensagem cheia de palavrões no Twitter, Donald Trump Jr. acusou o Post de produzir “manchetes elogiosas" a respeito de um “assassino e estuprador em série", e de “literalmente atuar como assessoria de imprensa de um lixo terrorista".

“Vá se ferrar Wa Po!”, escreveu Trump Jr.

Michael Caputo, que atuou como autoridade de comunicação na campanha de Trump de 2016, acredita que a Casa Branca e seu departamento de assessoria de imprensa “chegaram a um ponto sem retorno". Mas, na sua opinião, o que ele chama de “ataques defensivos" contra repórteres individuais são "preocupantes. Entendemos que pode-se chegar a um ponto em que as coisas vão longe demais".

Mas atacar a imprensa é hoje amplamente considerado uma jogada inteligente pelos conservadores. Em janeiro, rebatendo perguntas a respeito do processo de impeachment contra Trump, a senadora republicana Martha McSally, do Arizona, chamou de “fantoche liberal" o repórter que cobre o congresso para a CNN, Manu Raju - e a campanha de reeleição de Trump a celebrou como heroína (“É ASSIM que lidamos com as NOTÍCIAS FALSAS") com uma mensagem no Twitter com link para a campanha de captação de recursos dela.

“Todos esses golpes foram sentidos", disse Caputo, que se manteve em contato com o presidente. “Em um ciclo eleitoral, o presidente poderá usar tudo isso a seu favor."

Caputo diz ter ouvido referências ao termo “notícias falsas” em toda parte - em Porto Rico, na Alemanha e na Ucrânia. Recentemente, um diplomata africano usou a expressão enquanto conversava com ele. “Não sei se a expressão 'Make America Great Again’ [Vamos tornar os EUA grandes novamente] vai durar para sempre enquanto frase de efeito", disse Caputo. “Mas as 'fake news’ [notícias falsas] são para sempre.” / Tradução de Augusto Calil

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