RICARDO CHAVES/AE
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Análise: Nexo com Brasil teve badalação e ruptura

O ex-presidente reatou relações com Cuba em 25 de junho de 1986

Eliane Cantanhêde*, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2016 | 05h00

O ex-presidente José Sarney, que reatou relações com Cuba em 25 de junho de 1986, considera Fidel Castro “o grande mito da história latino-americana deste século”. E acrescenta: “O grande acerto de Fidel foi a revolução contra o ditador Fulgencio Batista. Seu grande equívoco foi acreditar que o comunismo iria dominar o mundo.” 

A guinada para a União Soviética e o comunismo foi, segundo Sarney, quase um acidente: “Não era essa a direção da Revolução Cubana, mas Fidel foi empurrado para os russos pela intransigência dos americanos”. Sarney conheceu Fidel logo depois da revolução de 1959, quando o “comandante” ainda era o herói que libertara Cuba. 

Deputado pelo Maranhão, ele era da Banda de Música, ala liberal da UDN, partido das oligarquias, e foi convidado pelo anticomunista Carlos Lacerda para um jantar em homenagem a Fidel no apartamento de Maria do Carmo Nabuco, mulher de José Nabuco e nora do lendário Joaquim Nabuco.

Era um dos salões mais aristocráticos do Rio e a primeira impressão de Fidel e de seu braço direito, Camilo Cienfuegos, foi decepcionante. Tinham cabelos oleosos e seus uniformes cáqui eram mal ajambrados. O contraste com a ostentação carioca foi chocante. Depois, veio a ruidosa condecoração de Fidel pelo presidente Jânio Quadros, em 1961, e a ruptura de relações, enfim, que duraria 22 anos, com uma bizarra inscrição nos passaportes brasileiros: “Não é válido para Cuba”. 

O reatamento teve motivação prática: evitar a vulnerabilidade do continente, com a ilha isolada e a Nicarágua vivendo uma revolução socialista. “Acuada, Cuba insistiria em exportar sua revolução”, explica Sarney, que se aliou a Raúl Alfonsín, presidente da Argentina. Na véspera de encerrar o mandato, em 1990, Sarney reuniu presidentes num jantar e definiu a democracia: “Aqui, é quando um presidente cumpre seu mandato até o fim, faz as malas e passa ao sucessor”. Fidel torceu o nariz e acaba de morrer sem, na prática, jamais fazer as malas em Cuba. 

*É COLUNISTA

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