Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Análise: Nos últimos dias, Trump ignora funções do cargo que lutou para manter

As transgressões, grandes e pequenas – das normas, da liderança, da decência humana – lançaram uma mortalha sobre seus últimos dias no cargo e, mesmo na opinião de conselheiros próximos, mancharam indelevelmente seu legado

Associated Press, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 07h00

WASHINGTON - Os dias do presidente Donald Trump na Casa Branca estão contados. Mas ele já parou de fazer boa parte de seu trabalho. Nas últimas três semanas, uma bomba explodiu em uma grande cidade e o presidente não disse nada a respeito. O coronavírus quebrou novos recordes horríveis de doença e morte no país sem que Trump reconhecesse os terríveis marcos. Uma multidão violenta incitada pelas próprias palavras do presidente bradou pelo linchamento de Mike Pence no Capitólio dos Estados Unidos e Trump não fez nenhum esforço para proteger seu vice.

Trump só tardiamente ordenou que as bandeiras fossem hasteadas a meio mastro para homenagear um oficial que deu a vida para defender o Capitólio e não se deu ao trabalho de falar sobre o gesto do oficial. As transgressões, grandes e pequenas – das normas, da liderança, da decência humana – lançaram uma mortalha sobre seus últimos dias no cargo e, mesmo na opinião de conselheiros próximos, mancharam indelevelmente seu legado. Meia dúzia de funcionários do governo atual expressaram consternação com a conduta do presidente nas últimas semanas. Eles falaram sob a condição de anonimato porque ainda estão trabalhando para Trump.

“Mesmo depois de perder a eleição, o presidente Trump tinha a chance de deixar a Casa Branca de cabeça erguida, comemorando conquistas como a vacina contra a covid-19, o progresso no Oriente Médio e a vibrante economia pré-pandemia, impulsionada pela reforma tributária”, disse Michael Steel, membro do Partido Republicano e ex-assessor do ex-presidente da Câmara John Boehner.

“Em vez disso, ele escolheu chafurdar no delírio e no ressentimento. E, como resultado, as imagens definidoras de sua presidência serão a multidão sangrenta e assassina saqueando a catedral de nossa democracia, o Capitólio dos Estados Unidos”, disse Steel.

Na última quarta-feira, 6, enquanto a violência crescia no Capitólio, foi só por insistência dos assessores que Trump, ainda relutante, postou um par de tuítes pedindo calma. Na quinta-feira, 7, ele gravou um vídeo presidencial condenando a violência, aparentemente na esperança de evitar uma possível denúncia legal e os esforços para removê-lo do cargo.

Agora, enquanto o FBI alerta para protestos armados em todo o país e em Washington nos dias anteriores à posse do presidente eleito Joe Biden, Trump não disse nada nos últimos dias para conter as paixões, nem garantir que seus apoiadores não recorram mais uma vez à violência.

Ao mesmo tempo, Trump continuou a espalhar mentiras sobre fraudes eleitorais, sobre seus oponentes políticos e sobre membros de seu próprio partido. Depois da votação de 3 de novembro, incapaz de admitir a derrota, ele se retirou para o bunker de sua própria ilusão e arrastou milhões consigo.

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Dois meses depois, os assessores ainda estão tentando convencer Trump a fazer um esforço para resgatar e apresentar suas conquistas no cargo, com sucesso limitado.

Ele concordou em viajar para o Texas na terça-feira para ver o muro da fronteira entre os Estados Unidos e o México uma última vez durante o mandato. Mas ainda não aceitou a proposta de seus assessores para fazer declarações em sua última semana na presidência para destacar o desenvolvimento das vacinas contra o coronavírus e seus esforços para aumentar o financiamento militar.

É improvável que Trump faça um discurso de despedida antes de deixar o cargo, uma tradição para presidentes que estão se despedindo da Casa Branca.

As ações de Trump custaram a ele seu megafone, uma vez que as empresas de mídia social o suspenderam de suas plataformas por causa de sua retórica provocativa. Mas Trump fez pouco esforço para recuperar sua voz, evitando entrevistas na televisão e interações com repórteres.

Em vez disso, Trump está fervilhando dentro da Casa Branca, indo e voltando entre sua sala de jantar privada ao lado do Salão Oval e o andar residencial da mansão, nunca longe de algum aparelho de televisão. Sem Twitter nem Facebook, ele vem usando o telefone para se ressentir com um círculo cada vez menor de assessores e aliados.

Desde as festas de fim do ano, Trump determinou que sua agenda pública diária – praticamente desprovida de qualquer evento público – deveria incluir uma afirmação bizarra cujo objetivo seria dizer que ele está de fato trabalhando: “O presidente Trump trabalhará desde o início da manhã até tarde da noite. Ele fará muitas ligações e terá muitas reuniões”.

A orientação virou piada na Casa Branca, e assessores próximos dizem que ela mal disfarça a verdade: Trump efetivamente parou de agir como o presidente depois da eleição, e sua incapacidade de se concentrar em quase qualquer coisa além de sua derrota foi ficando cada vez mais pronunciada com o passar das semanas.

A agenda de Trump não tem um briefing de inteligência há meses – embora assessores digam que ele os tenha requisitado esporadicamente. Enquanto o coronavírus matava mais de 375 mil americanos no ano passado, ele fez pouco, pública ou privadamente, para tentar controlar a violenta pandemia. E semanas depois de uma das maiores infiltrações nas redes de computadores do governo americano ter sido atribuída à Rússia, a principal reação de Trump foi sugerir que poderia ter sido a China.

Enquanto Trump não para de remoer sua derrota eleitoral e muitos de seus defensores desaparecem, cabe ao seu quadro cada vez menor de assessores na Casa Branca defender seu histórico nos últimos quatro anos e oferecer garantias de que o presidente ainda está no cargo.

“O presidente Trump reverteu as regulamentações governamentais, construiu a economia mais forte e inclusiva da história, está trazendo nossas tropas para casa, desenvolveu uma vacina segura e eficaz em tempo recorde e mudou a maneira como são feitos os acordos nacionais e internacionais, para que os resultados realmente ajudassem os trabalhadores americanos”, disse o porta-voz de Trump, Judd Deere.

“Este importante trabalho continua junto com a reconstrução de nossa economia, cumprindo as promessas que ele fez, as quais nos levaram a uma América mais segura e mais forte”. Mas Trump tem feito poucos esforços para defender esse argumento. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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