Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP
Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP

Análise: O Brasil entre Donald Trump e Joe Biden

Diante da incerteza sobre que país irá emergir da disputa presidencial, é imperioso que o governo brasileiro mantenha uma prudente distância do embate político nos EUA

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 08h47

Uma relação equilibrada entre o Brasil e os Estados Unidos será sempre importante para a estabilidade hemisférica, para o desenvolvimento socioeconômico latino-americano e, sobretudo, para o avanço de uma agenda bilateral mutuamente benéfica nas mais variadas esferas, tais como comércio, investimentos, defesa, saúde, educação e ciência, tecnologia e inovação.

É imprescindível que Brasília e Washington tenham uma verdadeira parceria estratégica – sem que haja subordinação de interesses ou alinhamento automático. O que se espera de um país da envergadura do Brasil é que mantenha relação equilibrada com a principal potência internacional. Essa deve ser uma relação estruturada de acordo com o interesse nacional – e não orientada a partir de simpatias pessoais.

Diante da incerteza sobre que país irá emergir da disputa presidencial entre Donald Trump e seu adversário Joe Biden, é imperioso que o governo brasileiro mantenha uma prudente distância do embate político entre democratas e republicanos – como manda, aliás, a tradição diplomática brasileira.

O pêndulo do favoritismo, conforme os dados disponíveis no momento, inclina-se na direção do candidato democrata. O presidente incumbente possui pouco tempo para reverter o declínio de sua popularidade em estados vitais como, por exemplo, Pensilvânia, Florida, Arizona e Carolina do Norte – mas, nada é impossível em política. Há sondagens que indicariam diminuição recente da vantagem de Biden, que ainda mantém a dianteira com certa folga.

O discurso que garantiu a Trump a vitória, na eleição de 2016, contra a democrata Hillary Clinton, parece não encontrar o mesmo eco no cenário atual. Falha de liderança, incapacidade decisória e fragilidade moral pesam contra o atual presidente. O sentimento “anti-trumpista” ganhou tração e transformou a disputa em uma eleição de caráter plebiscitário. Isso, obviamente, sem mensurar os efeitos reais que o desemprego, a tensão racial e a pandemia podem ainda ter sobre o resultado final do pleito.

Não é preciso dizer que Joe Biden, se vencer, recolocará o EUA de volta na UNESCO, na OMS, mudará o padrão de voto do país nos foros ambientais e nos mecanismos internacionais de direitos humanos. O Acordo de Paris, a agenda securitária dos EUA para o Oriente Médio e a entendimento delineado com Cuba – no governo Obama – retornarão naturalmente para o centro gravitacional da agenda de política exterior americana.

Sob um governo democrata, o Brasil não estará no centro da agenda de prioridades. Tampouco o país será tratado como ator irrelevante, apesar dos escorregões de idolatria em prol do “deus” Trump, o suposto “salvador do ocidente”. Pragmáticos como são, os americanos relevarão tudo e focarão nas concessões que podem ainda extrair do governo Bolsonaro. Esperam, porém, que o governo brasileiro não adote uma política negligente em temas sensíveis, especialmente no que diz respeito à Amazônia – para que o Biden não seja compelido a ter de criticar o Brasil abertamente. E, obviamente, espera-se que Brasília siga a estratégia de Washington na obstrução da agenda da China no mundo.

Ainda que o Brasil cogite a hipótese de evoluir de patamar, saindo do campo da subserviência a Trump para o campo do mero alinhamento automático aos EUA, será forçoso fazer ajustes importantes nas atuais linhas da “política externa”. Afinal, o Brasil terá que lidar com outro Estados Unidos, onde os principais temas globais receberão uma abordagem diplomática muito distinta da que prevalece na atual administração da Casa Branca.

Daqui em diante, será fundamental esboçar um traço de sobriedade quanto à manifesta predileção do governo brasileiro pela reeleição do atual presidente americano. A proteção do interesse nacional requer não cair no amadorismo infantil de se imiscuir, novamente, na eleição presidencial alheia. Agora, se Trump repetir o feito de quatro anos atrás, aí Brasília terá a oportunidade de renovar a seu servilismo sem peias diante do interesse nacional... norte-americano!

*Hussein Kalout é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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