Kevin Lamarque/Reuters - 2019
Kevin Lamarque/Reuters - 2019

Análise: O Brasil no embate entre Estados Unidos e China

Busca da supremacia no campo cibernético e de novas tecnologias de transmissão de dados se converteu no alicerce da disputa entre chineses e americanos

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 11h06

O Brasil se tornou um dos epicentros da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Parceiro preferencial de ambos os países no campo econômico-comercial, o Estado brasileiro se defronta com uma escolha complexa e que será decisiva para o futuro do país.

No xadrez global, Washington e Pequim travam batalha para redesenhar, a partir de sua disputa tecnológica e econômica, as fronteiras da nova ordem mundial. A China que acaba de se tornar a maior economia do mundo, superando o PIB dos EUA por paridade do poder de compra, encontra-se em posição de força.

A busca da supremacia no campo cibernético e de novas tecnologias de transmissão de dados se converteu no alicerce da disputa entre chineses e americanos. A banda 5G tem o potencial de revolucionar as comunicações em função da velocidade e da quantidade de dados de transmissão, com impacto em diversas áreas, do entretenimento à telemedicina, da automação de processos produtivos à Internet das coisas. 

Como mecanismo de contenção, os EUA empregam a estratégica de formação de coalizões anti-chinesas com o objetivo de preservarem a sua superioridade no sistema internacional. A junção das variáveis “pressão e contenção preside a lógica de como Washington busca estancar o expansionismo geoestratégico de Pequim. Para o establishment Washingtoniano, quem detiver a supremacia sobre a matriz tecnológica do 5G irá, provavelmente, ditar o ritmo econômico e político do futuro da ordem global.    

A estratégia americana de pressão e contenção foi bem-sucedida junto ao Reino Unido e à Alemanha. E acaba de dar resultado também na Suécia. Os EUA lograram preservar e proteger a sua esfera de influência junto aos seus tradicionais aliados transatlânticos. O Brasil é agora o principal campo de batalha entre Washington e Pequim. Perder o mercado brasileiro será um golpe duro para a China, tendo em conta que o país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil. A eventual exclusão da Huawei do processo licitatório da rede 5G será recebida como uma humilhação geoestratégica em Pequim.

Se forem capazes de convencer o governo Bolsonaro de seus argumentos, os EUA estariam prestes a avançar diversas peças simultaneamente no tabuleiro e que culminariam em ganhos significativos para os seus interesses como: 1) fraturar a relação comercial Brasil-China; 2) implodir a coesão dos BRICS; 3) imobilizar os interesses chineses no Brasil como, por exemplo, os investimentos nos setores energético e infraestrutura.

É importante compreender que o “portfólio 5G” não é agenda exclusiva do Partido Republicano ou do Partido Democrata. É uma pauta vital própria do establishment securitário dos EUA – e que será sempre encampada a despeito da força política que estiver no poder.

É nesse sentido que se insere a visita capitaneada pelo Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Robert O’Brien, ao Brasil. A sua delegação veio autorizada a oferecer, ao lado brasileiro, linhas de crédito e benefícios em troca de amputar a participação da chinesa Huawei no processo licitatório da rede 5G.

De orelhas em pé, os mais céticos gorjeiam curiosos sobre as razões da visita de O’Brien e de sua delegação, a Brasília, neste exato momento – logo no meio de uma pandemia e de uma batalha campal pelo domínio da Casa Branca entre os dois candidatos presidenciais. Por que não após o resultado da eleição?  Não deixa de ser uma manobra diplomática ousada e até heterodoxa para o padrão de cautela do establishment washingtoniano.

Duas motivações podem estar por trás dessa manobra. A primeira é reforçar a narrativa de Trump, central na sua campanha, de que está forjando alianças com países afins para contrabalançar a crescente influência chinesa. Pouco importa que as linhas de crédito anunciadas sejam por enquanto uma mera promessa, que exigirão estruturação de projetos e garantias, ou que investimentos chineses em leilões de petróleo sejam muito mais vultosos e concretos. Importante é a narrativa.

O segundo motivo, menos provável, seria consolidar o Brasil na órbita norte-americana no tema do 5G antes do resultado eleitoral, garantindo uma vitória de longo prazo possível graças à subordinação de Bolsonaro a Trump, mas que será certamente vantajosa para o lado norte-americano e apoiada por um eventual governo Biden.

* HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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