Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Análise: O comércio exterior brasileiro em risco

Vale nutrir um discurso ideológico desvairado e desconectado da realidade para atacar parceiros vitais?

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 15h05

Desde o início da década de 1990, a diplomacia comercial brasileira tornou-se ativo importante para a ampliação da pauta exportadora do país, além de vetor indutor do desenvolvimento e da geração de riqueza. 

Uma leitura atualizada dos interesses geopolíticos, coincidente com a formatação de uma nova geografia econômico-comercial, culminou, ainda na primeira metade dos anos 90, na fundação do Mercosul, na adesão do Brasil à OMC e na expansão da teia de acordos comerciais com várias regiões do mundo. 

Países asiáticos, médio-orientais e europeus tornaram-se a grande plataforma de absorção de nossa capacidade produtiva. O escoamento da base agrícola de produção reposicionou o Brasil em condição privilegiada no embate global por acesso a mercados. EUA e China continuaram na dianteira como sócios comerciais de primeira grandeza, seguidos pela Argentina, nosso irmão sul-americano, parceiro estratégico inescapável.

Apesar de possíveis imperfeições, a diplomacia comercial brasileira amealhou reputação internacional e expandiu o alcance da atuação do país mundo afora. No entanto, seguimos aquém de nossas potencialidades. A persistência de um mercado fechado e protecionista, somado às tímidas adaptações do parque produtivo às exigências da competitividade global, não permitiram ao Brasil ampliar fatia maior do universo do comércio global para muito além da média de cerca de 1%. 

A despeito desse conjunto de dificuldades internas e externas, o Brasil soube sempre harmonizar de forma equilibrada o seu discurso diplomático com as suas principais prioridades comerciais. Atualmente, tanto o discurso como as prioridades mais prementes no campo comercial andam em descompasso assustador. Atacam-se de modo irracional e incompreensível os principais parceiros e, pior, sem qualquer estratégia crível de como conter eventuais danos colaterais. Não é preciso muito para chegar à conclusão de que a falta de estratégia de política externa expõe a economia nacional, o empresariado, os trabalhadores do setor produtivo e o próprio PIB. 

Debater os rumos da diplomacia comercial brasileira tornou-se imperativo. O setor produtivo nacional não está apenas insatisfeito. Está, sobretudo, apreensivo. Não há previsibilidade no horizonte que permita cumprir contratos, preservar mercados e prospectar novas oportunidades. 

Para recompor a razão, é necessário olhar para os dados recém-lançados pelos Ministérios da Agricultura e da Economia. Só assim é possível ter a dimensão da importância do agrobusiness para a plataforma econômica nacional e dos riscos que se incorre ao se optar por aliená-la. 

Os números são reveladores de como, por exemplo, as exportações para a China (28,1%) superaram a soma das exportações dos outros nove principais mercados: União Europeia (16,4% de participação), EUA (6,1%), Japão (2,2%), Bangladesh (2,1%), Turquia (2,0%), Hong Kong (1,9%), Tailândia (1,9%), Arábia Saudita (1,9%) e Indonésia (1,8%).

Os dados do MAPA indicam que para cada US$ 1 que o Brasil exporta para os EUA são exportados mais de US$ 6 para a China em produtos do agronegócio. Além disso, a China adquiriu 73,4% da soja em grãos exportada pelo Brasil para o mundo no primeiro quadrimestre. Em relação ao primeiro quadrimestre de 2019, houve crescimento de 26,2% nas exportações do agronegócio brasileiro para o nosso principal sócio comercial. Além da China, os países que mais contribuíram para o crescimento das exportações brasileiras do agronegócio foram: Paquistão (+US$ 223,15 mi), Tailândia (+US$ 209,38 mi) e Bangladesh (+US$ 208,79 mi).

Há pouco mais de uma década, a relação Brasília-Pequim mudou completamente de configuração. A China não apenas se tornou o principal parceiro comercial do país, mas, se tornou o maior importador da pauta agrícola brasileira. Apenas no primeiro quadrimestre deste ano, a China apresentou participação recorde de 37,7% nas exportações do agronegócio (US$ 11,85 bi). 

Além disso, a fatura do confronto estabelecido pela atual diplomacia com os principais países europeus já começa a cobrar seu preço. A União Europeia – segundo principal destino das exportações brasileiras – registrou, no quadrimestre, recuo de 6,7% em participação de mercado. 

Apesar de falhas sistêmicas em sua plataforma comercial desde 1990, o Brasil conseguiu estabelecer e manter teias comerciais estáveis e previsíveis. Reconhecendo que o país não deve depender de um único mercado e considerando que a opção pela diversificação das parcerias comerciais é a mais segura aos nossos interesses, atacar países vitais para a nossa base produtiva é risco desnecessário. O agronegócio representa, atualmente, quase metade das exportações totais do Brasil no mundo. 

A pergunta que se faz é: vale nutrir um discurso ideológico desvairado e desconectado da realidade para atacar parceiros vitais? Se a resposta for sim, será urgente encontrar outros destinos para escoar a produção nacional. Mas, se a realidade se impuser sobre a narrativa psicodélica da ala ideológica do governo, então é chegada a hora de tratar as coisas com pouco mais de responsabilidade – como, aliás, vem fazendo o Ministério da Agricultura. 

*HUSSEIN KALOUT, 43, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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