Virginia Mayo/AP
Virginia Mayo/AP

Análise: O dilema da União Europeia

A humanidade não tem uma 'memória global comum', uma 'forma global de pensar' e uma 'história universal' na qual as pessoas possam se apoiar para construir um sistema político supranacional sólido

Heni Ozi Cukier, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2016 | 05h00

Talvez a maior força política na história da humanidade sempre tenha sido a busca por autonomia ou liberdade. Autodeterminação é uma aspiração universal muito mais poderosa do que a democracia. Não é por acaso que o valor primário e fundacional da democracia é a liberdade. O desejo por autonomia pressupõe descentralização. Os referendos na Escócia e Catalunha demonstram como a democracia pode servir a descentralização. Um povo, ou um país, quer ser o dono do seu destino e para tanto precisa controlar os meios para atingir tal fim. Isso implica em se libertar de autoridades superiores ou estruturas aglutinadoras e centralizadoras. 

O processo moderno de emancipação política nasceu com o estado-nação e os seus movimentos nacionalistas — sempre apoiados no conceito de identidade nacional contida em um espaço territorial demarcado. Muitos críticos argumentam que a construção nacional é puramente artificial e portanto não respeitou ou deu vazão para os anseios de independência de múltiplos grupos minoritários. 

Entretanto, mesmo onde a criação da identidade nacional foi explicitamente um projeto político construído por um grupo de poder, raramente foi uma completa invenção. A criação da identidade depende, em grande parte, da revelação e exploração da história-étnica da comunidade e em ressaltar a distinção dos seus valores em relação as crenças políticas e culturais dos outros.

A saída do Reino Unido da União Europeia expõe um dos mais antigos dilemas sobre a identidade humana. Como reconciliar os múltiplos níveis de identidades? Qual identidade deve ter maior significado para um individuo? Nossa fidelidade deve ser prioritariamente com o núcleo próximo (familiar ou particular) ou com aqueles nos quais compartilhamos semelhanças maiores universais (humanidade)? Resolver o dilema oferecendo uma alternativa salomônica só alivia o desconforto intelectual, mas não elimina e explica os choques políticos do mundo atual — particularmente da União Europeia. 

Contexto Histórico. Na antiguidade, a tradição que deu origem e representou os anseios de unificação política foi o cosmopolitismo. Os princípios cosmopolitas floresceram na Grécia clamando por unidade entre as antigas cidades-estados.  Cosmopolitismo defende os interesses da humanidade e prega o desapego às afiliações da vida ordinária da nação.

O conceito de “cosmopolitismo” não é menos antigo do que o de “democracia”, mas desde sua origem sempre significou uma condição idealizada. A noção que o individuo é um cidadão do mundo e, portanto, o mundo se tornaria sua pólis — estado ou sociedade caracterizada por um senso de comunidade — sempre foi uma aspiração individual ao invés de uma realidade coletiva. 

Na antiguidade, somente alguns comerciantes, soldados, intelectuais e potentados tinham acesso a terras, cidades ou pessoas além da sua comunidade nativa. No mundo contemporâneo, os verdadeiros cosmopolitas são os executivos corporativos, burocratas intergovernamentais, artistas, turistas, intelectuais e celebridades.

 

No contexto europeu, talvez os lideres e burocratas sejam os poucos que habitam o “espaço europeu”. A UE é uma estrutura híbrida, na qual países compartilham parte da sua soberania com instituições supranacionais. O continente não é um estado federativo governado por uma constituição onde a soberania popular foi transferida para instituições governamentais democráticas. 

Ao contrario, a União é um acordo entre estados que eventualmente podem decidir abandonar o projeto ou recuperar parte da soberania previamente cedida. Ou seja, a UE é fundamentalmente um relacionamento eletivo, criado para a conveniência dos seus membros. 

Integração X Separação. Existe uma percepção generalizada que a aceleração da globalização, consolidação da cadeia global de produção, migração em massa, comunicação e tecnologia global criaram um mundo interdependente no qual os estados-nações enfrentam uma iminente obesolencia como estrutura política soberana, unidade econômica viável, e esfera cultural limitada. Todas essas transformações estariam, supostamente, nos levando para a construção de uma cultura global na qual identidades híbridas estão expandindo nossa consciência humana. 

O progresso europeu das últimas décadas também vem reforçando a ideia de que o nacionalismo é irracional, principalmente diante dos fatos que comprovam os efeitos positivos da imigração na economia britânica. Entretanto, os eleitores à favor da saída do Reino Unido não foram persuadidos pelas evidências. O resultado do referendo não deve gerar somente perdas econômicas, mas desmonta uma premissa central da ordem liberal moderna: cidadãos se guiam por interesses racionais e individuais. O erro da análise econômica-racional é ignorar o poder emocional ligado a identidade. Para a maioria dos britânicos (e talvez do mundo) identidade se sobrepõe a economia. As pessoas preferem pagar um preço mais alto (literalmente, no caso Britânico) para preservar a ordem social que os faz sentirem-se seguros e poderosos. 

Por mais que a integração europeia tenha sido bem sucedida em algumas esferas, ainda não se construiu uma cultura e identidade própria. Quais são os símbolos da identidade europeia? Quantos sabem cantar o seu hino (sim, existe um)? Ninguém! O hino europeu existe somente em uma versão instrumental devido ao grande número de idiomas do continente. Onde está a seleção europeia de futebol? Mas afinal, de que adiantaria uma seleção europeia se não existiria uma copa do mundo de continentes para jogar. O time europeu jogaria contra o Mercosul ou Nafta? 

O termo “história europeia” é na verdade uma coleção de contos sobre conquistas e lutas de diversos povos. Logo, não é possível contar essa história dentro de uma moldura “continental”. Para amarrar ou contextualizar uma narrativa histórica europeia seria necessário construir uma trama entre a Europa e outros continentes. A história e memoria coletiva dos povos das diversas regiões do mundo não existe pelo prisma continental, mas sim sob a ótica étnica, cultural, provincial, local e linguística. 

As ansiedades expostas pela maioria dos britânicos são mais um exemplo de que as culturas nacionais (e locais) permanecem robustas; as instituições nacionais continuam tendo um impacto central na vida publica; a televisão e rádio nacionais continuam conquistando maior parte da audiência; a organização da imprensa e cobertura das notícias mantêm fortes raízes nacionais. E por fim, a humanidade não tem uma “memória global comum”, uma “forma global de pensar” e uma “história universal” na qual as pessoas possam se apoiar para construir um sistema político supranacional sólido. 

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