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Análise: O espinhoso caminho do novo chanceler brasileiro

O Itamaraty nunca esteve tão aliviado com a demissão de um comandante-em-chefe, mas não se pode dizer que a Casa de Rio Branco irá viver um novo tempo de iluminismo

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 09h00

O Itamaraty nunca esteve tão aliviado com a demissão de um comandante-em-chefe. Finalmente, Ernesto Araújo é hoje uma (triste) página virada na história da diplomacia brasileira. Mas, como a prudência é a mãe de todas as virtudes, não se pode dizer que a Casa de Rio Branco irá viver doravante um novo tempo de iluminismo – cenário altamente improvável, para não dizer impossível, dada a personalidade do governante brasileiro.

Uma avaliação meramente intuitiva induz o mais inocente dos analistas a inferir que o novo chefe da diplomacia brasileira andará, permanentemente, no fio da navalha, trafegando em um delicado tripé de expectativas que abarca: sociedade, instituições de Estado e as volições do presidente da República – e do núcleo familiar e ideológico que o cerca.

Sem experiência de gestão e muito menos em formulação, Ernesto Araújo entrou tendo que provar diariamente canina lealdade ao projeto para confirmar que estava plenamente embarcado na odisseia bolsolavista. O resultado foi o de impor a um país plural e multicultural uma linha de política externa obscurantista, reducionista da identidade nacional a uma visão sectária condimentada por elementos religiosos e consubstanciada em concepção ideológica regressiva e descompassada com os interesses estratégicos brasileiros.

Por tais razões, os desafios do novo regente da chancelaria brasileira serão complexos e múltiplos. O primeiro deles será o de consolidar a sua legitimidade política dentro e fora do Itamaraty.

 Já o segundo dependerá de sua capacidade de se firmar na posição, em curto espaço de tempo, tratando de pautas espinhosas como crise sanitária, meio ambiente, interesses estratégicos do país no sistema multilateral e, precipuamente, mudanças de rota na relação diplomática do Brasil com China, Argentina, EUA e às potências europeias. Terceiro, por fim, é o de recobrar a capacidade do Itamaraty de ser respeitado na Esplanada e nos demais poderes da República.

A política externa do presidente Bolsonaro não tem nada a ver com o interesse nacional do Estado Brasileiro. Tornou-se um ativo de poder para galvanizar o bolsonarismo e um dos mais eficientes instrumentos de catequização ideológica. É por isso que a conduta do novo ministro será observada de perto por aqueles que afiançaram a sua indicação ao comando do Itamaraty.

Nesse sentido, não é descabido afirmar que o embaixador Carlos França irá trilhar um árido caminho que estará preso a um delicado equilíbrio. O seu êxito, no exercício dessa função, dependerá, em grande medida, do grau de autonomia e independência que ele terá em relação ao dueto que influenciou os contornos do conteúdo e da conduta de seu decomposto predecessor, o deputado Eduardo Bolsonaro e o assessor palaciano Filipe Martins.

Cabe sublinhar, contudo, que a indicação de Carlos França ao comando do Itamaraty ocorre no contexto de uma conjuntura profundamente díspar em comparação ao seu antecessor. Ernesto Araújo sucedeu a Aloysio Nunes Ferreira, um dos bons chanceleres da diplomacia brasileira, herdando uma política externa que tinha um norte e obteve resultados para o país. O novo chefe da diplomacia nacional entra para suceder o pior ministro do exterior da história do Brasil, ou seja, herda um passivo descomunal e inaudito, e com a responsabilidade de limpar o rastilho de destruição deixado pelo Araújo. O contraste é tamanho que meros ajustes minimamente razoáveis já destacariam a sua administração à frente da diplomacia brasileira.

Realisticamente, não se esperam mudanças essenciais e substantivas nas linhas da política externa pela própria lógica que norteou o mecanismo de sucessão, porém, se o novo Chanceler lograr evitar mais desastres no processo de formulação e de execução e, sobretudo, se conseguir impor um fim ao obscurantismo que comandou a diplomacia nacional desde o início do governo, será em si só um movimento alvissareiro. 

No fundo, o que se espera do novo incumbente das relações exteriores é equilíbrio, pragmatismo, sensatez e coragem para dar esse passo na defesa do interesse nacional. Resta aguardar para ver.

* HUSSEIN KALOUT, é Cientista político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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