AP Photo/Frank Augstein
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Análise: O estranho histórico de Boris Johnson

Seu histórico na prefeitura de Londres dá uma dica de seu estilo desordenado e do encanto que desviou a atenção de muitos britânicos de seus erros perdulários

Benjamin Mueller e Stephen Castle / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2019 | 05h00

No ponto em que o Rio Tâmisa deságua no Mar do Norte, Boris Johnson queria construir um aeroporto em uma ilha artificial. Era 2009 e ele havia sido empossado como prefeito de Londres. Como vários outros projetos de Johnson, o aeroporto consumiu milhões de libras, mas nunca saiu do papel. 

Aos 55 anos, o novo primeiro-ministro britânico adquiriu a imagem de um “desastrado gentil”. Ele é o queridinho de um renomado grupo de conservadores determinado a implantar o Brexit de qualquer forma. Johnson é também a escolha do presidente dos EUA, Donald Trump. Mas, apesar de seu charme, muitos colegas e analistas colocam em dúvida sua competência. Seu mais recente emprego de alto escalão, como chanceler, mostrou certo desconforto em uma função que exigia mais seriedade do que grandiloquência.

Como premiê, Johnson enfrentará a maior crise do Reino Unido em tempos de paz, o Brexit, que segue por caminhos labirínticos que ele tanto evita. Sua promessa de retirar o país da União Europeia até o fim de outubro deixou muitos preocupados com a possibilidade de um Brexit sem acordo. Até mesmo os aliados admitem que ele foca no quadro geral, mas ignora os detalhes da governança. 

Johnson é intuitivo e gosta de improvisar. “Ele pega a vibração do momento e define o caminho a percorrer”, disse Ray Lewis, assessor durante o mandato como prefeito. “Johnson tem uma visão ampla, mas os detalhes técnicos não são importantes.”

Depois de uma carreira como jornalista, Johnson foi eleito deputado, em 2001, e prefeito da capital, em 2008 – o primeiro de dois mandatos. O cargo de prefeito, criado em 2000, tem poderes limitados. Mesmo assim, seu histórico na prefeitura dá uma dica de seu estilo desordenado e do encanto que desviou a atenção de muitos britânicos de seus erros perdulários.

Ken Livingstone, antecessor de Johnson como prefeito, rejeitou um modelo adorado de ônibus de dois andares e o substituiu por “ônibus flexíveis”, mais longos e espaçosos – para muitos londrinos, uma monstruosidades moderna e sem alma.

Aproveitando essa raiva, Johnson prometeu reviver o modelo clássico e trouxe de volta os cobradores, apesar das advertências de que o modelo não era economicamente viável. “Ele gostava de fazer coisas difíceis sem experiência ou capacitação. E estava mais do que feliz em blefar ou mentir”, disse Jenny Jones, membro da Câmara Municipal de Londres. “Eu não confiaria nele para alimentar meu gato.”

Nada embelezou tanto a marca Johnson como a Olimpíada de Londres, em 2012. Ele se divertiu com a chance de vender a cidade e a si próprio para o mundo. Mas, depois, sua decisão de converter o Estádio Olímpico para acomodar um clube da primeira divisão inglesa, o West Ham, deixou um legado exorbitante: custa 8 milhões de libras todo ano para mudar os assentos do público de atletismo para o de futebol.

Johnson também quis construir uma ponte sobre o Tâmisa, que custou 50 milhões de libras sem que um único tijolo fosse colocado. Quando foi questionado pela vereadora Caroline Pidgeon, ele tentou ignorá-la. “Acho deprimente que você persista nesse ódio taleban contra objetos de beleza.”

Como chanceler, Johnson durou dois anos e se demitiu depois de minar a estratégia de negociação do Brexit da premiê, Theresa May, afirmando que o país estava “em direção ao status de colônia”. Em sua busca para se tornar premiê, Johnson adaptou seus hábitos antigos e fugiu das complexidades do Brexit. Entre uma de suas ideias estapafúrdias estava a construção de outra ponte, não sobre o Tâmisa, mas do Reino Unido até a França. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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