Damir Sagolj/Reuters
Damir Sagolj/Reuters

Análise: O futuro da relação entre China e EUA

Países vêm abrindo caminho para uma era de confrontos baseada nas posições das figuras mais extremistas de ambos os lados

Edward Wong e Steven Lee Myers, The New York Times

27 de julho de 2020 | 03h30

Estados Unidos e China vêm desmantelando décadas de engajamento econômico, político e social, abrindo caminho para uma era de confrontos baseada nas posições das figuras mais extremistas de ambos os lados.

Com o presidente Donald Trump em má posição nas pesquisas, seus assessores de segurança nacional intensificaram seus ataques à China.

O líder chinês Xi Jinping vem inflamando a disputa, ignorando a preocupação internacional com o crescente autoritarismo da China para consolidar seu próprio poder político e reprimir liberdades básicas, de Xinjiang a Hong Kong. E Trump tem contribuído para endurecer a posição de autoridades em Washington, alimentando um confronto que algumas pessoas na China consideram perigoso para os interesses do país.

O efeito combinado disso pode ser o mais relevante legado de política externa de Trump, mesmo que não seja aquele que ele mais persegue, ou seja, a consolidação de um confronto ideológico e estratégico fundamental entre as duas maiores economias do mundo.

O objetivo dos assessores mais radicais do presidente é uma ampla e intensa competição entre os dois países. Para eles, uma situação de confronto, coerção, agressão e antagonismo deve ser o status quo com o Partido Comunista Chinês, não importa quem governará os EUA no próximo ano. E chamam isto de “reciprocidade”.

O secretário de Estado Mike Pompeo declarou em um discurso proferido na quinta-feira que a relação entre os dois países deve ser baseada no princípio de “desconfiança e da verificação” afirmando que a abertura diplomática orquestrada pelo presidente Richard Nixon há quase meio século acabou prejudicando os interesses americanos.

“Temos de reconhecer uma dura verdade que deve nos guiar nos anos e décadas futuras: se desejamos um século 21 livre e não o século chinês com o qual Xi Jinping sonha, o velho paradigma do engajamento cego com a China simplesmente não é possível”. Os acontecimentos da semana passada agravaram ainda mais as relações, acelerando a degradação da situação.

Na terça-feira o Departamento de Estado ordenou que a China fechasse seu consulado em Houston, o que levou os diplomatas a queimarem documentos no pátio do imóvel. Na sexta-feira, em retaliação, a China ordenou aos Estados Unidos que fechassem seu consulado na cidade de Chengdu.

Nesse ínterim, o Departamento de Justiça americano acusou criminalmente quatro membros do Exército de Libertação Popular de mentirem sobre sua situação legal no país para operarem como agentes de inteligência secretos nos Estados Unidos. Os quatro foram presos. Um deles, a estudante Tang Juan, que frequentava a Universidade da Califórnia, em Davis, desencadeou o impasse diplomático ao buscar refúgio no consulado chinês em San Francisco.

A situação chegou a um ápice depois de um mês em que o governo anunciou sanções contra autoridades do alto escalão na China, incluindo um membro do Politburo, por causa do internamento em massa de muçulmanos; revogou o estatuto especial de Hong Kong nas relações comerciais e diplomáticas e declarou que as reivindicações marítimas da China no tocante ao Mar da China Ocidental são ilegítimas.

O governo também impôs uma proibição de viagens no caso de estudantes chineses que frequentam faculdades e universidades nos Estados Unidos com vínculos militares na China. As autoridades agora avaliam se adotam a mesma medida para membros do Partido Comunista e suas famílias, um ato de grande amplitude que poderia colocar 270 milhões numa lista proibida.

Trump prometeu mudar a relação entre os dois países, mas principalmente no que se referia ao comércio. No começo deste ano, a trégua negociada na guerra comercial dos dois países foi exaltada por alguns assessores como uma façanha que seria uma marca distintiva deste governo. O acordo continua em vigor, mas está por um fio diante da disputa mais ampla.

Além da China, poucos objetivos de política externa do governo americano foram concretizados. A diplomacia pessoal de Trump com relação ao líder norte-coreano Kim Jong-un em nada contribuiu para pôr fim ao programa nuclear da Coreia do Norte.

Sua saída do acordo nuclear firmado com o Irã afastou ainda mais os aliados dos Estados Unidos e tornou os líderes iranianos ainda mais beligerantes. Sua tentativa para mudar o governo da Venezuela fracassou. E a prometida retirada dos soldados americanos do Afeganistão ainda não aconteceu.

Em Pequim, algumas autoridades e analistas rejeitam publicamente muitas das medidas do governo Trump taxando-as de campanha política e acusando Pompeo e outros de promoverem um clima de guerra fria para ganhar pontos na briga pela reeleição. Mas reconhecem que as raízes do conflito são mais profundas.

A abrangência da campanha do governo justifica a posição daquelas pessoas na China – e possivelmente do próprio Xi Jinping – que há muito tempo suspeitam que os Estados Unidos jamais aceitarão o poder econômico e militar cada vez maior do país e nem seu sistema político autoritário.

“Não tem a ver apenas com eleição”, disse Cheng Xiaohe, professor na Escola de Estudos Internacionais da universidade de Renmin, em Pequim. “É também uma escalada natural resultado das contradições inerentes entre China e Estados Unidos.

Os chineses têm procurado evitar um conflito aberto com os Estados Unidos. E têm insistido para o governo Trump reconsiderar cada uma das suas ações e pedindo que haja mais cooperação, não confronto, mas sem oferecer concessões da sua parte.

“Com o sentimento global contrário à China chegando ao seu mais alto nível em décadas, as autoridades chinesas têm manifestado interesse em explorar saídas potenciais para a atual situação, que no futuro poderia destruir as relações entre China e Estados Unidos”, disse Jessica Chen Weiss, cientista política da Cornell University.

“Pequim não deseja uma guerra total com os Estados Unidos, mas no mínimo o governo chinês vai retaliar para mostrar ao mundo – e a um possível governo Biden - que o país não será intimidado nem controlado”.

Trump age em direções opostas no tocante à China. Chamou Xi de “grande amigo” e até o incentivou em particular a continuar construindo campos de internamento para muçulmanos e enfrentar os manifestantes pró-democracia em Hong Kong à sua maneira, afirma John R. Bolton, ex-assessor de segurança nacional do presidente, em seu novo livro.

Com a eleição cada vez mais próxima, seu tom mudou. E ele voltou a atacar a China como fez em 2016, culpando Pequim pela pandemia e até se referindo ao coronavírus com uma frase racista, “Kung Flu”. Seus assessores de campanha tornaram a retórica agressiva com relação à China um pilar da sua estratégia, acreditando que ela vai estimular os eleitores.

A linguagem exaltada, combinada com as ações adotadas pelo governo, têm o efeito de motivar os cidadãos chineses, afirmam analistas e políticos em Pequim.

“Desejo vigorosamente que os americanos reelejam Trump porque em sua equipe há muitos membros insanos como Pompeo”, disse o editor do jornal nacionalista chinês Global Times. “Eles ajudam a China a fortalecer a solidariedade e a coesão de uma maneira especial”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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