MANDEL NGAN/AFP
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Análise: O futuro do embate EUA-China

Domínio tecnológico será determinante não apenas do grau de competitividade econômica, mas, também, do poder de influência de cada ator nos tabuleiros políticos, diplomáticos e militares

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 10h41

Em maio passado, a Casa Branca publicou um documento intitulado “United States Strategic Approach to The People’s Republic of China. O texto ganhou pouca atenção na América Latina e, em particular, no Brasil. Ainda que não seja nenhuma grande peça ao estilo dos argutos escritos do exímio estrategista George Kennan – como em seu telegrama ‘Artigo X’ ou escritos da ‘Grand Strategy’ –, o teor merece detida reflexão.

Em primeiro lugar, o documento é repleto de significados e pode ser decodificado sob vários ângulos. Porém, o que importa essencialmente não é tanto o conteúdo quanto a forma como o texto institucionaliza a natureza do embate entre EUA e China, ao apontar o país asiático como a ameaça estrutural – e não mais conjuntural – à ordem mundial desde o fim da URSS. 

A peça sublinha de forma categórica a necessidade de os EUA projetarem o seu poder como único instrumento capaz de servir como barreira de contenção à expansão da China no mundo – e nessa equação fica claro que as normas do direito internacional não terão a mais remota relevância.

No documento, para além de reconhecer que os chineses são a verdadeira ameaça aos seus interesses globais, os Estados Unidos batizam o regime de confrontação com Pequim com o mote “abordagem competitiva”. Os pilares estratégicos dessa dinâmica seriam: 1) a proteção do povo americano, da nação e de seu modo de vida; 2) a promoção da prosperidade americana; 3) a preservação da paz por meio da força; 4) o avanço da influência americana.

O caminho traçado para salvaguardar a integridade desses quatro pilares passaria, inexoravelmente, por aperfeiçoar a capacidade de resiliência das instituições americanas, fortalecer as alianças estratégicas dos EUA na contenção do poder chinês e atuar de forma coordenada com parceiros e aliados para forçar a China a cessar ou reduzir ações consideradas danosas aos interesses de Washington – e nisto fica claro que todas as armas serão legítimas.

A guerra tecnoeconômica seria mola propulsora desse processo. Os pilares 2 e 4 indicam que o embate principal entre os Estados Unidos e a China se travaria pela conformação da nova ordem geoeconômica. O domínio tecnológico, nessa corrida, será determinante não apenas do grau de competitividade econômica, mas, também, do poder de influência de cada ator nos tabuleiros políticos, diplomáticos e militares. A supremacia nas cadeias globais de valor será derivada do controle sobre a inteligência artificial.

Portanto, não se trata de confronto com as características do que moldou a geometria das relações internacionais durante o período da Guerra Fria. Os contornos da disputa atual são muito mais complexos e sofisticados. Da perspectiva econômica, não havia nada de complementar entre a economia americana, capitalista, e o modelo econômico soviético, socialista: EUA e URSS nem sequer concorriam por espaços e mercados.

Além disso, Moscou não tinha condições de influir nas instituições do sistema monetário-financeiro internacional como o FMI e o Banco Mundial. Pelo prisma político-militar, o embate tinha como vetor basilar a corrida armamentista. Soviéticos e americanos haviam definido que a superioridade bélica constituiria o objetivo a impulsionar a rivalidade entre o Leste e o Oeste.

A China não busca ser a nova Roma como a URSS almejou – aspiração central dos partidos socialistas no mundo. Tampouco a preocupação chinesa (por ora) assenta no propósito de expandir seu modelo doutrinário. Pequim pretende antes desenhar nova geometria econômica em que sua posição represente força incontornável. Por isso, os americanos precisam estar preparados para encarar um adversário duro e mais determinado.

O maior erro que os EUA podem cometer nesse processo é costurar uma espécie de Pacto de Varsóvia às avessas. A URSS à época demandava uma fidelidade canina. Se seguirem pressionando países aliados e amigos a tomarem lado na disputa – sem muito espaço para acomodação de interesses –, os EUA podem comprometer seu objetivo estratégico.

Caso o atual ocupante da Casa Branca vença a eleição, o segundo mandato será dedicado à implementação do documento via embate frontal. Se Biden levar, espera-se um ajuste milimétrico nessa abordagem e paciência estratégica nos moldes da era Obama. 

*Hussein Kalout é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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