ANÁLISE: O futuro do pontificado

Perfil do papa, um homem que não se acomoda facilmente, aumenta a esperança de que haja uma reforma na Igreja

PE. MANOEL GODOY, Especial para o Estado

23 Junho 2013 | 02h04

Um dos maiores perigos que nos afetam é o acostumar-se. Vamos nos acostumando tanto à vida e a tudo o que há nela que já nada nos assombra. Causou-me assombro e perplexidade perguntar a um conhecido como estava e ouvir a resposta: "Mal, mas acostumado". Acostumamo-nos à violência como algo que não pode faltar nas notícias, nos acostumamos à pobreza e à miséria. Acostumamo-nos a viver em uma cidade paganizada em que os pequenos não sabem rezar e nem fazer o sinal da cruz.

Acostumar-se nos anestesia o coração, não há capacidade para esse assombro que nos renove a esperança, não há lugar para o reconhecimento do mal e poder para lutar contra ele. Esse pequeno trecho da mensagem do cardeal Jorge Mario Bergoglio, para a Quaresma de 2012, nos dá esperança de que agora, como papa Francisco, o ex-arcebispo de Buenos Aires não se deixe acostumar com a rotina secular de alguns pontos críticos da instituição.

Estamos vivendo os 100 dias do papa Francisco à frente de uma instituição religiosa que congrega mais de 1 bilhão de seguidores no mundo. Muitos poderão argumentar que é muito cedo para avaliar o seu pontificado, mas há medidas que clamam por urgência e sua demora pode nos dar o sabor do "acostumbramiento", que ele criticou com transparência.

Será muito pedir aos cardeais aposentados que ainda vivem na Cúria que voltem a suas igrejas de origem? Enquanto esse grupo se mantiver por lá, paira uma dúvida quanto às reais mudanças na instituição. É claro que o primeiro encontro do G-8, grupo de oito cardeais criado pelo papa Francisco para a reforma da Cúria, só se dará em outubro. Mas a esperança continua.

Será muito pedir aos núncios apostólicos que restrinjam sua atuação à diplomacia e deixem a condução da Igreja para as Conferências Episcopais? Será muito incluir mulheres nos quadros diretivos? Será muito rever o tratamento dado a padres casados, aos diáconos viúvos, aos casais de segunda união? Poderão argumentar que há coisas mais urgentes. Fico só com essas, por enquanto, por julgar que não oferecem tantos obstáculos para sua implementação. Considerando a mensagem de Bergoglio para a Quaresma de 2012, podemos ter esperança de que Francisco não é homem de "acostumbramientos" e tomará medidas concretas.

* PE. MANOEL GODOY É DIRETOR DO INSTITUTO SANTO TOMÁS DE AQUINO, EM BELO HORIZONTE.

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