Brendan Smialowski/AFP
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Análise: O futuro do populismo

Em 2016, eleição de Trump e Brexit fizeram com que duas das mais antigas democracias do planeta experimentassem o populismo. Em 2020, americanos confirmam se quadro é definitivo ou se foi erro de percurso

Carlos Poggio*, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 07h23

A chegada de Donald Trump à presidência, somada ao referendo do Brexit, fez de 2016 o ano em que as duas mais antigas e consolidadas democracias do planeta experimentaram a chaga do populismo, fenômeno conhecido por parte de democracias mais frágeis como as da América Latina. O ano de 2020 será chave, pois é quando deve finalizar o longo processo de saída do Reino Unido da União Europeia no mesmo momento em que os americanos são chamados para confirmar se o populismo chegou ao país de forma definitiva ou foi um erro de percurso.

É verdade que o fenômeno do populismo de direita já era evidente em democracias avançadas antes de 2016, em particular na Europa. É também verdade que a eleição de Trump não se deu no vácuo, mas foi resultado do caldo social cultivado após a crise econômica de 2008, que testemunhou aumento brutal da desigualdade em países desenvolvidos em um contexto de rápidas mudanças demográficas que ameaça a condição de maioria da população branca nesses países.

Foi esse caldo que criou a sensação de vulnerabilidade econômica e cultural vivenciada por muitos eleitores que se viram atraídos pelo discurso populista que promete a volta ao passado. No caso dos EUA, essas variáveis continuariam presentes com ou sem a eleição de Trump, da mesma forma que permanecem na França mesmo com Macron tendo vencido Le Pen em 2017. Os eventos de 2016, porém, certamente foram cruciais para se criar o ambiente ideológico em que populistas de direita em vários cantos do mundo se espelharam e prosperaram.

Ao redor do mundo, líderes da direita populista estão abandonando uma tradição diplomática de evitar apoiar um dos lados em eleições em outros países e abertamente declarando torcer por Trump. No Brasil, Jair Bolsonaro disse outro dia que espera que o presidente dos EUA seja reeleito. Declaração semelhante foi dada por Viktor Orbán, na Hungria, no poder desde 2010. O líder da Liga italiana, Matteo Salvini, apareceu em um protesto em Roma com uma máscara onde se lia "Trump 2020", remetendo ao boné com a mesma inscrição ostentado em 2018 pelo filho de Bolsonaro e ex-aspirante a embaixador nos EUA, Eduardo Bolsonaro.

Para esses líderes, a presença de Trump na Casa Branca é importante menos por razões de ordem material e mais por motivos psicológicos. Trump ofereceu não apenas uma estratégia para vencer eleições, mas inspiração para governar: o uso de uma retórica nacionalista de oposição ao "globalismo", de transformação de adversários em inimigos com os quais não se deve negociar, de ataques constantes à imprensa com o uso da expressão "fake news", combinado com disposição para utilizar um linguajar considerado politicamente incorreto para avançar uma agenda socialmente conservadora. A vitória de Trump significaria uma validação psicológica para esses líderes, demonstrando que esse é o rumo certo a ser seguido.

É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FAAP

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