Leah Millis/Reuters
Leah Millis/Reuters

Análise: O futuro dos Estados Unidos na ordem internacional

Débito de Trump com o eleitorado está ancorado em nada menos do que tudo aquilo que os americanos repudiam: falha de liderança, incapacidade decisória e fragilidade moral

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 10h00

A batalha pela Casa Branca entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump será uma das mais acirradas disputas eleitorais da história e, sobretudo, decisiva para o futuro dos EUA na ordem internacional.

São cerca de 30 milhões de desempregados, mais de 100 mil mortos pela pandemia e protestos antirraciais espalhados por diversas cidades americanas. É com esse passivo que o Trump terá que defender o mandato e encarar o rival democrata que, por ora, desponta à frente em diversas pesquisas nacionais.

Trata-se de fatura pesada para solver em curto espaço de tempo. Na verdade, o débito de Trump com o eleitorado está ancorado em nada menos do que tudo aquilo que os americanos repudiam em um comandante-em-chefe: falha de liderança, incapacidade decisória e fragilidade moral.

O que o presidente americano teria a oferecer em sua narrativa eleitoral – como, por exemplo, o crescimento econômico, a criação de empregos e a contenção do poder da China – os fatos têm-se encarregado de dilacerar. Suas cartas mais poderosas se transformaram simplesmente em pó. Para a elite do país, Trump falhou fragorosamente ao não atuar de forma antecipada na minimização de danos precisamente nesses três temas.

Não menos relevante, cabe adicionar três importantes aspectos que tendem a impactar a campanha do mandatário americano: 1) a crise racial e seus efeitos políticos; 2) o posicionamento de altos oficiais das Forças Armadas americanas; e 3) o significado das críticas de líderes republicanos ao seu presidente.

Trump já havia demostrado tibieza quando tergiversou sobre a violência empregada por movimentos supremacistas brancos nos graves episódios de Charlottesville, em 2017. Sua insensibilidade e falta de compromisso com as minorias do país e seus direitos civis expuseram as vísceras de sua política sectária. 

Novamente, no lastimável episódio do assassinato de George Floyd, o presidente americano deixou de condenar a violência da polícia e de solidarizar-se com a família da vítima. Tampouco se dirigiu à comunidade negra em tentativa de aplacar sua indignação. 

A ameaça do uso da força contra as manifestações – sejam pacíficas ou não – não foi apenas mero exibicionismo do chefe do Executivo. Foi, no fundo, movimento estratégico, com o objetivo de dispersar as manifestações, que poderiam galvanizar amplo espectro de apoio e logo se converter em grandes comícios em favor do candidato democrata.

Ademais, o presidente americano fez a opção por não liderar pela via da conciliação em tema de grande complexidade e que ainda provoca cismas profundos na sociedade americana. Nesse quesito, Trump preferiu acenar para os movimentos neoconservadores.

No cálculo do presidente americano, vale mais preservar o voto de sua base de ultradireita do que tentar pacificar o país em tema que não interessa a franja de seu eleitorado cativo.

Essa escolha desencadeou a revolta de oficiais generais que abandonaram sua circunspecta disciplina e saíram em condenação ao gesto de Trump. A falta de liderança e de preocupação com os rumos da nação ficou patente. O efeito prático da reação dos militares americanos foi, em certo grau, que Trump perdeu o respeito do Pentágono.

Na esteira da insatisfação militar, um terceiro desdobramento poderá abalar os planos de Trump. Líderes republicanos como o governador de Massachusetts, Charlie Baker, e o ex-presidente George W. Bush, não hesitaram em condenar abertamente a

conduta do atual inquilino da Casa Branca. O General Colin Powell, que foi Conselheiro de Segurança Nacional do governo Ronald Reagan e Secretário de Estado do governo Bush filho, já declarou apoio ao candidato democrata.

O Senador republicano Mitt Romney, candidato derrotado na eleição presidencial de 2012 para o ex-Presidente Barack Obama, expressou que não votaria em Trump.

Diversos candidatos republicanos já operam para descolar as respectivas candidaturas – ao Senado e ao governo de alguns estados – da plataforma de Donald Trump em sua campanha à reeleição. Isto é, em vários estados, Trump não terá o endosso de companheiros de partido.

A liderança de Abraham Lincoln no processo de abolição da escravatura, ao assinar a Proclamação da Emancipação de 1863 e aprovar, em 1865, a Décima Terceira Emenda da Constituição dos EUA, representou a maior contribuição do partido republicano ao país. A conduta moral do atual incumbente, além de ser vista como ultrajante, nas fileiras do próprio partido, é deletaria para a reputação histórica dos republicanos. 

A corrida eleitoral entre Trump e Biden promete assumir contornos de batalha campal e transcorrer em circunstâncias épicas. Para vencer a eleição de novembro próximo, será preciso mais do que dinheiro e slogans de campanha. A conjuntura política clama por liderança. O emblemático discurso de Obama abre espaço para que os republicanos repensem o futuro de seu partido e, consequentemente, o futuro do país no mundo. Se há alguém que pode levar à derrocada dos EUA na ordem internacional, definitivamente não é a China. Mas o próprio Donald Trump.

*HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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