KRT via AP Photo
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Análise: O homem-foguete foi promovido a chefe de Estado?

Mais de seis anos depois de assumir o poder, Kim Jong Un, da Coreia do Norte, tem ainda de realizar um dos ritos característicos de um líder mundial – acolher um outro chefe de Estado ou ser recebido em uma visita ao exterior

Eric Talmadge / ASSOCIATED PRESS, O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 05h00

Mais de seis anos depois de assumir o poder, Kim Jong-un, da Coreia do Norte, tem ainda de realizar um dos ritos característicos de um líder mundial – acolher um outro chefe de Estado ou ser recebido em uma visita oficial ao exterior. O gabinete da presidência da Coreia do Sul anunciou ontem que os dois países realizarão uma reunião de cúpula no próximo mês em um vilarejo na zona desmilitarizada que divide as duas Coreias. E do lado sul da localidade, o que é uma novidade.

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A reunião de Kim, esta semana, com uma delegação do alto escalão do governo sul-coreano para debater sua proposta de um encontro de cúpula com o presidente Moon Jae-in foi uma manobra política astuta e possivelmente uma tentativa de sair da sombra dos seus predecessores e se tornar o líder supremo indiscutível da Coreia do Norte.

E Kim parece já estar aperfeiçoando a visão do que espera no futuro. Quando a delegação sul-coreana estava em Pyongyang, ele deu mostras de gostar do papel que raramente assume – de um chefe de Estado magnânimo acolhendo convidados estrangeiros importantes. A mídia estatal norte-coreana fez questão de retratá-lo como estadista confiante, cortejando e sendo cortejado durante um opulento jantar, radiante durante a sessão de fotos do grupo e congratulando-se com a Coreia do Sul pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang.

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Uma diferença enorme das imagens que predominaram em 2017, do jovem líder cercado por seus generais comemorando o lançamento recente dos seus mísseis.

A reunião de cúpula entre as duas Coreia não é sem precedentes. Seu pai, Kim Jong-il, reuniu-se com seus homólogos sul-coreanos em 2000 e 2007, e os dois encontros se realizaram e Pyongyang.

Para mostrar como essa cúpula é importante, Kim enviou sua irmã mais nova para vender a idéia diretamente para Moon, no mês passado, quando participou da cerimônia de abertura da Olimpíada de Inverno. Foi a primeira vez que um membro da família Kim cruzou a fronteira.

Mas não se engane. Kim continua aferrado às suas armas nucleares e ao seu arsenal de mísseis capazes de atingir o continente americano. Embora possa suspender a produção de qualquer novo míssil ou a realização de testes nucleares futuramente, como Seul sugeriu, ele afirmou repetidas vezes que não tem nenhuma intenção de renunciar a eles ou usá-los como moeda de troca para melhorar suas relações com Seul, Washington ou qualquer outro país.

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Depois de um ano de fortes tensões entre o seu regime e o governo do presidente Donald Trump, Kim claramente espera afastar Seul da linha adotada por Washington de uma “pressão máxima” contra seu regime. E procura aperfeiçoar suas relações com o Sul como um meio de manter a economia norte-coreana à tona.

Mas as recentes medidas que adotou parecem ir mais além. Mesmo sem grandes avanços políticos duradouros, uma reunião de cúpula será um grande êxito pessoal para Kim, que apesar de ser o epicentro de uma enorme inquietação internacional ainda é conhecido do mundo quase que exclusivamente por meio de imagens e declarações cuidadosamente filtradas pelo aparelho de propaganda estatal norte-coreano.

Até onde, além da reunião de cúpula com a Coreia do Sul, Kim deseja ou pode ir, é uma incógnita. Moon insiste para a Coreia do Norte retomar conversações com os Estados Unidos, e o seu acerto de um encontro com Kim indica que mais avanços nessa frente estão em vista. Seul declarou que o próximo passo é informar as autoridades americanas.

As viagens ao exterior costumam ser arriscadas se um líder não está totalmente certo de que a estabilidade será mantida quando ele estiver longe.

Mesmo assim ambos os predecessores de Kim viajaram para além das fronteiras do seu país durante seus mandatos. Kim Il-sung visitou a União Soviética e grande parte da Europa oriental, viajando de trem em 1984. O próprio Kim Jong Um esteve no exterior, tendo estudado na Suíça quando criança, e ocasionalmente surgem rumores de que visitaria Pequim ou Moscou.

Pelo menos ele tem um avião pronto para isso.

Sua irmã mais jovem, Kim Yo-jong, viajou para o Sul em um avião propriedade particular de Kim, decorado internamente para ser o tipo de aeronave que outros líderes usam para viagens oficiais. Ao que parece foi projetado para indicar que ele, como qualquer outro líder político, está pronto para partir quando surgir a oportunidade.

Não que isto venha a acontecer em breve. Ninguém sugeriu até agora uma viagem de Kim a Seul. As relações com Pequim estremeceram e embora os vínculos com Moscou sejam relativamente melhores, a atenção do presidente Vladimir Putin está voltada para outros assuntos. E apesar de observações contrárias feitas ocasionalmente por Trump, uma viagem a Washington é algo bastante remoto. Mas até um ano atrás, também eram remotas as chances de um encontro de cúpula com o líder da Coreia do Sul.

Tradução de Terezinha Martino

 

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