Social Media Website/Handout via REUTERS
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Análise: O massacre na Nova Zelândia foi feito para tornar-se viral

O vídeo de 17 minutos de parte do ataque que deixou 49 pessoas mortas é um dos registros mais perturbadores e de alta definição de um ataque em massa na era digital

Charlie Warzel / The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2019 | 18h18

Na sexta-feira, um homem de pouco menos de 30 anos, amarrou uma câmera em um capacete, carregou seu carro com armas, dirigiu-se a uma mesquita em Christchurch, Nova Zelândia, e começou a atirar em qualquer um que passasse por sua linha de visão. Ele transmitiu ao vivo o ato do terror em massa para que o mundo assistisse nas mídias sociais.

Quarenta e nove pessoas foram mortas no ataque, que ocorreu em duas mesquitas diferentes da cidade. O vídeo de 17 minutos de parte do ataque, que saltou para a Internet mais rápido do que os censores da mídia social tivessem condições de removê-lo, é um dos registros mais perturbadores e de alta definição de um ataque em massa na era digital - um grotesco registro na primeira pessoa de um atirador, mostrando a capacidade humana de brutalidade.

Vídeos de ataques são projetados para amplificar o terror, é claro. Mas o que torna essa atrocidade “um ato de violência extraordinária e sem precedentes”, como a primeira-ministra Jacinda Ardern descreveu, é a natureza metódica em que o massacre foi conduzido e como foi aparentemente projetado para conseguir a maior possibilidade possível de tornar-se viral.

Embora plataformas como Facebook, Twitter e YouTube se esforçassem para derrubar a gravação e o manifesto do atirador que a acompanhava, elas não eram páreo para a velocidade de seus usuários; novas ferramentas de inteligência artificial criadas para limpar essas plataformas de conteúdo terrorista não poderiam derrotar a astúcia humana e o impulso de olhar.

Em minutos, o vídeo foi baixado e espelhado em plataformas adicionais, de onde ricocheteou para todo o mundo. Imagens estáticas de corpos foram capturadas e carregadas em sites como Reddit, 4chan e Twitter, onde foram compartilhadas e distribuídas de novo.

Alguns usuários do Twitter descreveram freneticamente que tentaram impedir que os vídeos em seus feeds fossem reproduzidos automaticamente, para não serem bombardeados com a gravação da carnificina de todo o mundo.

Usuários da Internet deixaram a história digital do suposto atirador, preservando e compartilhando imagens de suas armas e armaduras corporais. A pegada digital do atirador - desde os delírios de seu manifesto supremacista branco até as postagens no quadro de mensagens do ‘8chan’ antes dos assassinatos - foi descoberta e, por um tempo, distribuída em cantos distantes da web.

O assassino queria a atenção do mundo e, ao cometer um ato de terror em massa, conseguiu isso. Não foi o primeiro ato de violência a ser transmitido em tempo real. Em 2015, dois repórteres em Roanoke, na Virgínia, foram assassinados por um atirador que postou as imagens no Twitter. Pouco tempo depois, o Periscope, um aplicativo de transmissão ao vivo, sofreu críticas após uma adolescente ter transmitido seu suicídio ao vivo.

Outros assassinatos foram transmitidos ao vivo no Facebook, como o assassinato aparentemente aleatório de Robert Godwin em 2017. Também houve numerosas gravações de encontros - às vezes fatais - com a polícia. Desde que a ferramenta de vídeo ao vivo estreou no final de 2015, os usuários também transmitiram estupro e abuso infantil - uma pesquisa de 2017 do BuzzFeed News encontrou “pelo menos 45 casos de violência” em toda a plataforma.

E, no entanto, o tiroteio em Christchurch parece diferente, em parte devido à aparente familiaridade do autor com os cantos mais obscuros da internet. A gravação contém inúmeras referências à cultura online e de memes, incluindo a verificação de nomes de uma personalidade importante do YouTube pouco antes do início do ataque.

A trilha digital que o atirador deixou para trás parece representar uma motivação supremacista branca para o ataque. Há muita coisa, por enquanto, que ainda é desconhecido, apesar do que foi postado online. O manifesto de 87 páginas, por exemplo, possui várias camadas de comentários irônicos e autorreferentes, aparentemente escritos em primeiro lugar para enfurecer especificamente as comunidades que parecem ter influído na transformação tão radical do atirador.

Parece que o atirador de Christchurch - que por sua pegada digital parece ser nativo da internet - compreende tanto a dinâmica da plataforma que permite que a desinformação e o conteúdo de caráter divisionista se espalhem, como também a forma de semear a discórdia.

Por mais aterrorizante que seja a própria violência, assusta o quanto a comunidade online trabalhou a favor do atirador. Esta pode ser a nossa nova realidade. Não só o ódio conspiratório se espalhou da internet para a vida real; também está armando-se para viralizar./ Tradução de Claudia Bozzo

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