REUTERS/Carlos Barria
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Análise: O oportunismo de Trump ao endossar a anexação do Golan por Israel

A posse israelense sobre as Colinas do Golan claramente teve muito a ver com as próximas eleições em Israel e também nos Estados Unidos.

Karen DeYoung e Carol Morello, NYT, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 05h00

O senso de oportunidade do endosso, pelo presidente Estados UnidosDonald Trump na quinta-feira, via Twitter, da posse israelense sobre as Colinas do Golan, claramente teve muito a ver com as próximas eleições em Israel e nos Estados Unidos.

Para o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que enfrenta uma crescente oposição ante a eleição daqui a apenas algumas semanas, o reconhecimento da soberania dos EUA sobre o território ocupado da Síria é um presente político. Para Trump, que acaba de lançar sua campanha para 2020, isso se soma à sua autodescrição como melhor amigo de Israel e dos evangélicos americanos, contestados por um partido Democrata que ele descreve como “anti-israelense” e “antijudaico”.

Mas o conselheiro de segurança nacional John Bolton contornou qualquer noção de uma grosseira motivação política na sexta-feira, ao tuitar que, permitir que as Colinas do Golan “sejam controladas por regimes sírios ou iranianos seria fechar os olhos para as atrocidades de Assad e a presença desestabilizadora do Irã na região”.

O reconhecimento de Trump não muda nada em termos de legislação internacional, que não reconhece a pretensão de Israel. Ao mesmo tempo, não houve praticamente nenhuma pressão internacional séria sobre Israel para que abandonasse o Golan, um platô elevado de basalto a leste e ao norte do Mar da Galileia, tomado da Síria na Guerra árabe-israelense de 1967. Cerca de 20 mil israelenses vivem em várias dezenas de colônias, junto com um número igual de drusos que parecem não ter pressa em reafirmar sua cidadania síria.

A Síria tentou sem sucesso retomar o território em 1973, e os dois lados concordaram com uma estreita zona desmilitarizada ao longo de sua fronteira que está sob o controle militar das Nações Unidas. Em 1981, Israel aprovou uma lei que efetivamente anexava o território, do qual a Síria é visível até os subúrbios ao sul de Damasco, a menos de 65 quilômetros de distância. O Golan é agora sede de fazendas e vinhedos israelenses, assim como da única estação de esqui de Israel.

No entanto, as forças iranianas e seus representantes, incluindo o Hezbollah, também se mudaram para o sudoeste da Síria, como parte de sua assistência aos esforços do presidente Bashar Assad para recuperar o território das forças da oposição.

Os esforços de Assad foram bem-sucedidos, apesar de um acordo de cessar-fogo de 2017, assinado pelos Estados Unidos e pela Rússia, que incluía uma promessa russa de manter os iranianos a pelo menos 80 quilômetros de distância da área.

Os iranianos, acusou Israel, estão se posicionando e ao Hezbollah, para instalar mísseis capazes de atacar Israel, vários dos quais já foram destruídos por ataques aéreos israelenses.

Netanyahu teria feito um apelo a Trump pelo Golan no ano passado, pouco depois de o presidente anunciar que mudaria a embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Mas a campanha só começou a ganhar força real até que Bolton, um ardente falcão contra o Irã, chegou à Casa Branca na primavera passada.

Conversas em andamento com a Rússia para retomar o acordo de cessar-fogo - negociar o recuo conjunto das forças dos EUA e do Irã - em grande parte não se concretizou, segundo altos funcionários envolvidos no processo, quando Bolton decretou que nenhum soldado dos EUA partiria até que todas as forças iranianas estivessem fora da Síria. Os funcionários falaram sob condição de anonimato porque não estavam autorizados a discutir as conversações com a Rússia.

O anúncio do tuíte de Trump provocou uma reação muito maior nos Estados Unidos e em Israel do que no resto do Oriente Médio. Aliados árabes americanos, talvez cansados das mudanças na política norte-americana, e ainda aguardando uma prometida proposta de paz entre israelenses e palestinos, declararam que qualquer reconhecimento da soberania israelense sobre o Golan enfraqueceria as perspectivas de paz e seria ilegal sob a legislação internacional./ Tradução de Claudia Bozzo

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