AP Photo/Andrew Harnik
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Análise: O primeiro sinal de vulnerabilidade às regras de Washington 

O mais notável no caso foi a rigorosa rotina: uma história devastadora vem à tona, a Casa Branca entra na defensiva, informações conflitantes se chocam e então, pimba: a renúncia

Chris Cillizza* / W. Post , O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2017 | 05h00

A demissão do general Michael Flynn do cargo de assessor de Segurança Nacional é prova de que mesmo para o menos ortodoxo dos presidentes algumas das velhas regras de Washington ainda valem. Flynn – e o governo Trump como um todo – esteve na defensiva nos últimos dias, depois de o Washington Post informar que ele discutiu com o embaixador russo, Serguei Kisliak, sanções econômicas recentemente impostas. Flynn desmentiu a informação não só ao jornal, mas também ao vice-presidente, Mike Pence – levando-o a afirmar num programa de TV que o tema nunca entrou nas conversas de Flynn com os russos.

O futuro do general dominou os talk shows políticos do fim de semana. Post, New York Times e Wall Street Journal publicaram artigos discutindo a capacidade de Flynn de sobreviver politicamente. Kellyanne Conway, estrategista da Casa Branca, afirmou, na segunda-feira, que Flynn desfrutava “de toda confiança” de Trump. Logo em seguida, no entanto, porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, contradisse Kellyanne, afirmando que Trump estava “avaliando” o futuro do general. Horas depois, Flynn estava fora.

O mais notável no caso foi a rigorosa rotina: uma história devastadora vem à tona, a Casa Branca entra na defensiva, informações conflitantes se chocam e então, pimba: a renúncia. Típico escândalo de Washington que se desenrolou como centenas de outros anteriores. Ousaria dizer que é até normal – normal, vale ressaltar, numa presidência que foi tudo menos isso em seu primeiro mês. Pela declaração de Kellyanne parecia que Trump iria, mais uma vez, nadar contra a corrente do bom senso e manter Flynn no cargo, recusando-se a ceder a pressões do establishment político e da imprensa que tanto despreza.

Ocorre que Trump acata o que Pence diz. Entende que o vice o ajuda em Washington e no Partido Republicano. Embora Flynn tenha se desculpado, alegando não se lembrar se falou ou não de sanções, o vice-presidente não engoliu o episódio. Deixar Pence feliz – e reduzir um fluxo ininterrupto de manchetes negativas – fez Trump esquecer sua lealdade a Flynn – o general era um dos favoritos de Trump.

O surpreendente no caso é que ele não surpreende. Encobrir o crime foi pior que o próprio crime. Deixar os chefões em saia-justa tem sérias consequências. Alguém precisa pagar. A demissão de Flynn tem todas as nuances de um tradicional drama de Washington. Isso faz dela algo diferente no atual governo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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