AP Photo/Matt Rourke
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Análise: O que é tranquilidade doméstica?

É não ser morto a tiros em sua casa de orações; não ser morto na escola; não ser morto em um clube noturno ou em um campo de shows ou de beisebol

Danielle Allen* / Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 05h00

Será que a sinagoga da Árvore da Vida em Pittsburgh, no Estado americano da Pensilvânia, deveria ter segurança armada? O presidente americano, Donald Trump, sugeriu isso após a horrível tragédia de sábado. A cegueira moral dessa opinião é grave. O momento é de luto. Mas também passou da hora de vermos claramente.

‘Era uma vez’: A primeira meta para se construir civilizações era reduzir a necessidade de armas na vida diária. O sentido da política era alcançar uma paz doméstica suficiente para dispensar o porte normal de armas; às armas foi atribuída a tarefa de garantir a segurança contra ameaças externas. ‘Era uma vez’: O propósito de sólidas instituições políticas democráticas era garantir a tranquilidade doméstica e, ao mesmo tempo, prover a defesa comum internacionalmente.

Meu primeiro ‘era uma vez’ refere-se à democracia da antiga Atenas. Meu segundo ‘era uma vez’ refere-se à era da Convenção Constitucional dos EUA.

A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, que narra o choque do século V a.C. entre a democrática Atenas e a oligárquica Esparta, ainda é ensinada nas aulas de relações internacionais. Ela apresenta às pessoas visões realistas da política externa e análise de conflito de equilíbrio do poder. Mas até mesmo Tucídides pensava que o objetivo da política interna era uma sociedade pacífica, na qual os cidadãos não precisariam se proteger com armas.

Ele abre seu livro explicando como Atenas se tornou uma grande cidade. Ele escreve, na tradução de Rex Warner, que uma vez “em toda a Hellas (Grécia antiga) a coisa normal (era) carregar armas em todas as ocasiões”. Mas então Atenas, com suas fortes instituições políticas, alcançou um novo estado de coisas. “Os atenienses foram os primeiros a abandonar o hábito de portar armas e a adotar um modo de vida mais relaxado”. Eles foram capazes de espalhar essa transformação através da Grécia, com o resultado de que o hábito de portar armas o tempo todo poderia agora ser encontrado apenas “entre os estrangeiros”. Do ponto de vista de Tucídides, esta foi uma tremenda conquista por parte dos atenienses. Tinha paralelo com a erradicação da pirataria.

A noção de que devemos nos armar diariamente a fim de estarmos livres da perseguição é propor que nossas vidas em conjunto sejam caracterizadas pela guerra, não pela paz. É abandonar o compromisso de construir uma sociedade onde as pessoas estejam livres de perseguição. A necessidade de transportar armas, como é óbvio, é proteger-se dos concidadãos, o que não é uma definição aceitável de tranquilidade doméstica.

Estamos comprometidos, pela nossa Constituição, em assegurar nossa tranquilidade doméstica, e não estamos conseguindo. O que seria necessário para alcançarmos isso? Eu acredito que pelo menos três coisas são os primeiros passos necessários.

Primeiro: nossos líderes, todos eles, de ambos os partidos, precisam de uma mudança de opinião. Eles precisam indagar a si mesmos o que seria necessário para trazer a paz entre nós, uma paz que inclua todos. Eles precisam fazer da paz entre nós uma prioridade real e alcançável. Eles precisam fazer disso uma questão não de produzir chavões supostamente unificadores na esteira da crise, mas de uma estratégia alternativa de governança, que inclua comprometimento. Onde eles não fizerem da paz entre nós uma prioridade, visível em seus métodos de governança, nós o povo, devemos responsabilizá-los por isso votando contra eles.

Segundo: precisamos de regulamentos para a posse de armas que restabeleçam seu lugar apropriado em uma sociedade civilizada. Eles devem ser regulamentados para limitar seu uso à caça e ao lazer - uma parte razoável de um mundo em que podemos estar em condições descontraídas uns com os outros.

Terceiro: Precisamos de uma infraestrutura nacional de saúde que torne disponíveis recursos significativos para a saúde mental e, de maneira mais geral, estabeleça uma base para a prosperidade de toda a população. Tudo vai melhor quando as pessoas têm acesso a cuidados de saúde - educação, trabalho, relacionamentos. Nosso sistema fragmentado, que deixa tantos sem proteção, dissemina o estresse e a ansiedade, contribuindo para o fenômeno do desespero social agora bem documentado pelos economistas. Esse desespero social é certamente uma fonte de nossa violência interior.

O que é tranquilidade doméstica? É não ser morto a tiros em sua casa de orações. Não ser morto na escola. Não ser morto em um clube noturno ou em um campo de shows ou de beisebol. Nem ter de carregar uma arma para cada um desses lugares.

Alcançar a tranquilidade doméstica é uma questão constitucional. É uma questão moral. É uma questão do que, sem discriminação em relação às nossas identidades sociais, todos nós devemos uns aos outros. Era o que devíamos - é o que ainda devemos - a cada pessoa abençoada e amada perdida ou ferida na sinagoga Árvore da Vida. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* DANIELLE ALLEN É TEÓRICA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE HARVARD.

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