Análise: O que o discurso de Obama pode alcançar?

Presidente americano despertou críticas ao declarar apoio a Estado palestino em fronteiras de 1967

Mark Mardell, BBC

19 de maio de 2011 | 21h54

Obama durante o discurso em Washington na quinta: fala o coloca ao lado dos árabes

 

WASHINGTON - O discurso desta quinta-feira, 19, do presidente Barack Obama, sobre o processo de paz no Oriente Médio, pode fazer mais para convencer o mundo árabe de que os Estados Unidos estão do seu lado do que comparações com levantes históricos americanos, como a Festa do Chá de Boston e os protestos pelos direitos civis.

 

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Presidentes americanos já falaram anteriormente sobre as fronteiras de 1967 nas negociações israelo-palestinas. De certa forma, é óbvio que qualquer Estado palestino será baseado na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, terras que foram ocupadas por Israel após a Guerra dos Seis Dias (1967).

Mas o que Obama acaba de dizer é novo.

Negociações, em geral, se resumem mais à sequência em que as coisas acontecem do que às suas conclusões. Obama disse que um acordo quanto às fronteiras do Estado palestino deve ser a base para as negociações - ou seja, não o ponto de conclusão dos diálogos, mas sim seu ponto de partida.

Em uma entrevista exclusiva a Andrew Marr, da BBC, cuja íntegra irá ao ar no domingo, Obama explicou seu raciocínio. "Nosso argumento é: vamos começar uma conversa sobre território e sobre segurança", disse o americano. "Isso não resolve todas as questões - ainda teremos o problema dos refugiados e (da soberania sobre) Jerusalém -, mas se fizermos progresso a respeito de como os dois Estados serão, e os lados (envolvidos) virem que é assim que vai terminar, então ficará fácil para ambos fazer concessões difíceis que resolvam as outras duas questões."

Obama pode ser conhecido por sua calma, mas aparentava irritação quanto à falta de progressos na questão israelo-palestina. "A comunidade internacional está cansada de um processo (de negociação de paz) sem fim, que nunca produz resultados", ele declarou.

É difícil acreditar que Obama não tenha se irritado quando o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, deu o aval para a construção de mais assentamentos em terras reivindicadas por palestinos, após os EUA pedirem pela suspensão de tais obras.

 

Reações

O presidenciável republicano Mitt Romney não gostou da fala de Obama. "O presidente jogou Israel para debaixo do ônibus. Ele desrespeitou Israel e minou sua habilidade de negociar a paz. Também violou o primeiro mandamento da política externa americana, que é a de apoiar os amigos", disse Romney.

Netanyahu também se queixou. Seu gabinete divulgou um comunicado furioso: "O premiê espera ouvir a reafirmação, por parte do presidente Obama, dos compromissos feitos pelos EUA com Israel em 2004, que foram fortemente apoiados pelas duas casas do Congresso (americano)".

O comunicado agregou que "entre outras coisas, esses compromissos se referem a Israel não ter que se retrair às divisas de 1967, que são indefensáveis e que deixariam grandes populações israelenses na Judeia e na Samária (a Cisjordânia) além dessas divisas".

Também houve reações positivas à fala de Obama. Mas as declarações do presidente americano foram duras, difíceis de serem engolidas pelo atual governo israelense. Então, que ganhos elas trazem?

É difícil entender como elas podem aumentar as probabilidades de avanço nas negociações de paz. Talvez a fala de Obama coloque Netanyahu como parte do problema. Talvez as declarações ajudem a dissuadir os palestinos do plano de tentar obter na ONU o apoio para sua independência.

O discurso desta quinta coloca Obama ao lado dos árabes de modo mais eloquente do que quando o americano disse que apoiar a democracia é a principal prioridade dos EUA (curiosamente, a aliada Arábia Saudita parece não ter ficado sabendo).

Acima de tudo, talvez o discurso se encaixe em sua imagem, pós-morte de Bin Laden, de que o presidente é alguém que gosta de correr riscos.

 

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