Jonathan Enst
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Análise: O que realmente importa em relação a Bernie Sanders e Cuba

O simples fato de estarmos falando a respeito de Castro como se a opinião de alguém a respeito dele tivesse alguma importância em 2020 mostra o quanto as coisas se tornaram absurdas

Paul Waldman, The Washington Post

27 de fevereiro de 2020 | 05h00

Todos concordamos que os debates das primárias presidenciais são terríveis. É quase impossível para um candidato dizer algo interessante ou esclarecedor no tempo designado. Todos os incentivos os impelem para frases de efeito pré-planejadas e cansativos enfrentamentos.

Mesmo assim, o debate da noite de terça-feira na Carolina do Sul foi particularmente péssimo, e ocorreu em um momento em que Bernie Sanders, agora considerado favorito para ficar com a candidatura democrata, enfrentava controvérsia por causa de suas opiniões a respeito de Fidel Castro. Os interessados em saber o que há de errado na nossa forma de debater política externa em uma campanha presidencial não precisam de outro exemplo além desse.

O simples fato de estarmos falando a respeito de Castro como se a opinião de alguém a respeito dele tivesse alguma importância em 2020 mostra o quanto as coisas se tornaram absurdas.

Quero deixar claro que não estou dizendo que não podemos discordar de alguma declaração de Sanders, seja atual ou de 30 anos atrás, a respeito da alfabetização em Cuba ou os méritos da arquitetura do metrô de Moscou - feitos impressionantes que o mais ardente capitalista teria que reconhecer.

Mas será que isso realmente nos diz algo a respeito de como deve ser a próxima presidência?

No debate, Sanders recebeu a seguinte pergunta:

“Você elogiou o Partido Comunista da China por ter tirado mais pessoas da pobreza extrema do que qualquer outro país. Também tem um histórico de declarações de apoio a governos socialistas de Cuba e da Nicarágua. Será que os americanos podem ter a certeza que um presidente democrata socialista não vai fechar os olhos para os autoritários?"

Por acaso voltamos no tempo até 1987? Pela pergunta, parece que os únicos regimes autoritários do mundo são os socialistas, e a medida das opiniões de um presidente a respeito do autoritarismo é um comentário a respeito dos sandinistas.

Com a exceção da pergunta “Por que seus resultados são ruins nas pesquisas de intenção de voto?" (que também foi feita a Joe Biden nesse debate), as perguntas mais inúteis começam com "Será que os americanos podem ter a certeza que..."

E é uma pena, porque nossa abordagem diante dos regimes autoritários é uma questão chave para a política externa americana, e algo que o próximo presidente pode decidir mudar.

Podemos começar reconhecendo que mantemos relações amistosas com muitos governos tão opressivos quanto o de Cuba, ou mais. Em se tratando do volume de opressão, nenhum governo do planeta consegue se comparar ao da China, e embora o relacionamento dos americanos com os chineses seja complexo, estamos longe de anunciar um embargo a eles (estão entre nossos principais parceiros comerciais).

Denunciamos o péssimo histórico de desrespeito aos direitos humanos e desestabilização regional do opressivo regime teocrático do Irã, dizendo aos cidadãos do país que enfrentem as autoridades e pensando em voz alta se devemos invadir, e quando; mas absolutamente nada é dito a respeito do péssimo histórico de desrespeito aos direitos humanos e desestabilização regional do opressivo regime teocrático da Arábia Saudita. Não ouvi ninguém pedir aos candidatos que explicassem seu posicionamento em relação a isso, ou o que pretendem mudar na política externa no futuro.

A partir daí, as coisas só pioraram no debate. Algumas questões complexas foram apresentadas como situações de suspense (“Se for comprovada uma interferência da Rússia nas eleições de 2020, você, como presidente, retaliaria com um ataque cibernético?") enquanto outras foram reduzidas ao seu simbolismo mais inflamável. 

Vários candidatos tiveram que responder se devolveriam a Embaixada dos Estados Unidos em Israel a Tel Aviv ou se a manteriam em Jerusalém, e Sanders foi confrontado por suas críticas à Comissão de Assuntos Públicos Americanos e Israelenses (AIPAC).

Mas os moderadores não pareciam interessados em como os candidatos poderiam de fato usar a influência americana para facilitar uma saída para o conflito Israel - palestinos.

A tempestade em copo d’água envolvendo Cuba demonstra o quanto se tornou vazio o debate em relação à política externa nessa campanha. Todos ficaram agressivos porque Sanders elogiou Fidel: centenas de reportagens foram publicadas, congressistas da Flórida agitaram os punhos, furiosos, e os especialistas concluíram que os democratas só conseguirão vencer se demonstrarem uma posição dura em relação aos comunas da nossa metade do mundo.

Mas ninguém perguntou qual deveria ser nossa política em relação a Cuba.

E ainda que Cuba esteja longe de ser nossa questão mais urgente de política externa, as diferenças são concretas. Barack Obama relaxou as restrições a viagens e ao comércio com a ilha, e então Donald Trump trouxe de volta a repressão, supostamente acreditando que, se mantivermos o embargo por mais 70 anos, o regime vai desmoronar. Assim sendo, o que o próximo presidente pretende fazer? Quase ninguém pergunta.

Em meio às pequenas polêmicas, às denúncias mútuas e tiradas nos debates, é muito fácil esquecer que, na verdade, é isso que estamos tentando descobrir a respeito dessas pessoas. O que cada um deles faria se fosse presidente? Como tomariam suas decisões? Quais políticas seriam mudadas e quais seriam mantidas?

Imagine se gastássemos nosso tempo preocupados com isso.

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