Michael Klimentyev/Sputnik/Kremlin/EFE
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Análise: O que significam as eleições americanas para a Rússia

Uma vez no poder, Trump mergulhou quase imediatamente em uma série de batalhas legais a respeito dos contatos de sua campanha com agentes do Kremlin,

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 07h00

Durante a metade da década, a presença espectral da Rússia assombrou a política dos Estados Unidos. As intervenções de Moscou visando a exercer a própria influência desempenharam um papel controvertido na surpreendente vitória de Donald Trump em 2016.

Uma vez no poder, Trump mergulhou quase imediatamente em uma série de batalhas legais a respeito dos contatos de sua campanha com agentes do Kremlin, acusações que Trump sempre menosprezou como falsidades, mas que levaram seus antigos colegas perante os tribunais.

O que Moscou ganhou com os seus esforços para semear o caos no cenário interno americano é mais uma questão em aberto. Em 2020, a Rússia se encontra em uma posição mais fraca em relação à que ocupava em 2016, sua economia foi abalada pela queda desastrosa dos preços do petróleo e seu público cada vez mais frustrado com o longo reinado do presidente Vladimir Putin.

 A aparente tentativa de envenenamento do dissidente russo Alexei Navalni revelou a vulnerabilidade do regime. Agora, enquanto crescem as chances de vitória do ex-vice-presidente Joe Biden nas próximas eleições presidenciais, de acordo com as pesquisas de opinião, o rublo russo está caindo por causa dos temores de que uma mudança de governo possa levar a novas sanções e a um gelo ainda mais profundo nas relações entre EUA e Rússia.

Trump e a Rússia

Ironicamente, nos últimos quatro anos, o governo Trump se mostrou duro com o Kremlin em várias ocasiões. Reiteradamente aprovou sanções contra autoridades e companhias russas e trabalhou para minar o alcance dos projetos do gasoduto russo na Europa, e ao mesmo tempo fortalecer vizinhos europeus da Rússia com vendas de armas. Mas o caso Trump em si é diferente.

Em um depoimento perante o Congresso, no mês passado, o diretor do FBI, Christopher A. Wray, disse acreditar que a Rússia mais uma vez está “se dedicando ativamente” aos seus esforços para influenciar as eleições americanas, especificamente “difamar” Biden, o adversário de Trump para a Casa Branca. Isto irritou o presidente, mas Wray não é o primeiro funcionário dos mais altos escalões a ligar a agenda de Putin ao sucesso político de Trump.

O ex-assessor de segurança nacional John Bolton, afirmou que tinha medo de deixar Trump sozinho com Putin em uma reunião de cúpula de 2018, e acusou Trump de relutar em acenar à interferência nas eleições em suas conversações secretas com as suas conversações particulares com o líder russo. O antecessor de Bolton, H.R. McMaster, afirmou na semana passada que Trump “ajudava e estimulava os esforços de Putin” semeando a incerteza a respeito do voto pelo correio e a credibilidade das eleições americanas.

“Como sabem, Putin foge literalmente de assassinato ou de tentativa de assassinato... para que as pessoas não o acusem disso”, disse McMaster à MSNBC. “E então eles são capazes de continuar com este tipo de bateria de falsidades, a fim de semear estas teorias da conspiração. Por outro lado, nós não podemos ser nossos piores inimigos”.

Independentemente das medidas do governo Trump contra Moscou, “temos uma Casa Branca que não demonstra uma postura sólida contra a Rússia”, disse Alina Polyakova, presidente e CEO do Centro Europeu de Análise Política, a “Today’s WorldView”. Os russos “vêm praticando todo tipo de crime”, afirmou, do Afeganistão, Síria e Líbia ao Mar Báltico, explorando a dissonante “incompreensível agenda de política externa" e a própria aparente relutância de Trump em confrontar Putin. 

Biden e a Rússia

No entanto, Biden também pertenceu a um governo tido como fraco em relação à Rússia, e cuja “reformulação” das relações com Moscou não conseguiu conter o oportunismo do Kremlin. “Você tem as intervenções (russas) na Síria, Ucrânia e as eleições americanas no governo Obama”, disse Polyakova. “Goste ou não, Biden fez parte desse governo e fez muito pouco para impor consequências concretas."

Como presidente, a maioria dos especialistas acredita que ele intensificará a pressão sobre Moscou e trabalhará em um acordo maior com os parceiros europeus que também estão adotando uma linha mais dura. “Se Biden for eleito, teremos de encarar a consolidação do Ocidente em uma plataforma contra a Rússia”, afirmou à Bloomberg News Andrey Kortunov, presidente do Conselho Internacional de Assuntos Russos fundado pelo Kremlin.

Biden taxou Trump de “cãozinho de Putin” em seu primeiro debate, enquanto menosprezava uma alegação republicana em grande parte sem provas de que seu filho recebeu US$ 3,5 milhões da mulher do ex-prefeito de Moscou. Em uma sabatina da CNN no mês passado, Biden afirmou que o “adversário” é a Rússia.

Sua visita à capital russa em 2011 como vice-presidente ainda é lembrada por ter dito aos líderes da oposição que Putin não deveria voltar a se candidatar à presidência, o que foi considerado uma afronta (agora o seu governo irá até 2036). Biden, como futuro presidente, terá de encarar o provável fim do acordo Novo START, que limitava o número de ogivas nucleares estratégicas exibidas por Estados Unidos e Rússia. As tentativas do governo Trump de negociar um novo tratado até o momento não tiveram muito sucesso.

“Um governo Biden confrontará a agressão russa de uma posição de força, enquanto trabalhamos para manter a estabilidade estratégica”, afirmou T.J. Ducklo, o porta-voz da campanha ao Axios no mês passado. “Ao contrário de sua administração que nunca levou a sério a ameaça russa, Joe Biden reunirá os nossos aliados para dissuadir uma agressão russa como uma frente unida, e protegerá aos interesses das democracias ocidentais."

Outros especialistas preveem um futuro sombrio para a Rússia, independentemente de quem ganhar as eleições de novembro. "Ambos os resultados serão ruins para a Rússia”, afirmou Dmitri Trenin do Centro Carnegie Moscou em um recente seminário em vídeo. “Eu esperaria uma maior deterioração das relações. Se Trump ganhar, a vitória será respondida pelo Congresso, e a Rússia será punida severamente por essa vitória – mais do que em 2016. Se Biden ganhar, ele mostrará ao mundo que não é o cãozinho de Putin e que levará Putin muito a sério."

É por isso que um resultado completamente diferente poderá não ser atraente para os russos. “De uma perspectiva russa, o melhor resultado é uma eleição contestada, caótica“, segundo Polyakova. O que é muito possível, considerando a real possibilidade de que Trump não aceite a derrota e possa optar por contestar a eleição nos tribunais.

Uma crise para a democracia americana – e o desespero global por causa dos Estados Unidos que em certos setores já se instalou – poderá ser uma vitória em si para a liderança russa. “Tem havido um equívoco na avaliação da estratégia russa em geral”, acrescentou Polyakova. “Seria garantir que os EUA pareçam um país caótico, mal administrado e repleto de conflitos, incapaz de entrar em acordo com os problemas externos e internos."

Para tanto, o Kremlin não precisaria levantar um dedo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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