ANDREI NETTO/ESTADAO
ANDREI NETTO/ESTADAO

Análise: O sonambulismo que leva ao nacionalismo

Ano passado, os separatistas catalães aprovaram a independência em um referendo que o governo de Madri declarou ilegal. O que ocorreu na Catalunha se repete em todo o mundo. Silesianos, sicilianos e escoceses, todos querem autonomia. A intensificação do nacionalismo e do tribalismo é evidente.

Max Boot / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 05h00

Donald Trump se beneficia do nacionalismo branco nos EUA. Vladimir Putin tira vantagem do nacionalismo russo. Viktor Orban explora o nacionalismo húngaro. Tayyip Erdogan, o turco. Xi Jinping, o chinês. E assim por diante. A técnica é apelar para o “medo do outro”, sejam mexicanos, muçulmanos, curdos, banqueiros, CIA ou outros monstros assustadores.

Você pode achar que as pessoas estão imunes a esse tipo de alarmismo, uma vez que o mundo jamais foi tão pacífico e próspero. No entanto, líderes como Trump colocam em risco as conquistas da era pós-1945 adotando o nacionalismo e questionando instituições internacionais como União Europeia, Organização Mundial do Comércio e Otan. Para muitos, é hipocrisia: eles estão fabricando rancores para justificar sua ânsia de poder. Mas por que tantas pessoas comuns aceitam?

O historiador Michael Howard ofereceu uma resposta em seu livro A Invenção da Paz. “A sociedade burguesa está entediada. Há algo na ordem nacional que sempre deixará algumas pessoas, especialmente os jovens, profundamente insatisfeitas. Os movimentos nacionalistas militantes ou os que propagam teorias conspiratórias radicais fornecem excelentes saídas para esse tédio. Combinada com outros elementos, essa atração pode se tornar irresistível.” 

O tédio do longo período de paz pós-Napoleão na Europa e a ascensão do nacionalismo virulento contribuíram para a eclosão da 1.ª Guerra. O comandante do Exército alemão, o general Erich von Falkenhayn, escreveu, em 1912, que todas as potências europeias sofreriam com uma “grande guerra europeia” e os beneficiários seriam EUA e Japão. “Mas, para mim, está tudo bem. Estou cansado e extremamente entediado com a vida indolente deste tempo de paz”, acrescentou.

Depois de duas guerras mundiais, europeus e americanos ansiavam pelo retorno àquela “vida indolente de paz”. Mas, com o tempo, parece que esquecemos como a paz e a prosperidade são preciosas e como é difícil mantê-las. Temo que o Ocidente esteja caminhando, como um sonâmbulo, para uma nova catástrofe, mais do que tudo, em razão do tédio.

É COLUNISTA

 

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