Mandel Ngan/AFP
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Análise: Objetivo de Trump é semear o caos e se aproveitar dele

Ataques não manterão presidente no cargo, mas podem minar esforços de Biden para unificar uma nação fragmentada

Julie Pace*, Associated Press

20 de novembro de 2020 | 05h00

O presidente Donald Trump tenta transformar uma eleição livre e justa dos EUA em uma barafunda de desinformação, reivindicações legais obscuras e ataques sem fundamento aos alicerces da democracia. O caos e a confusão não são o subproduto da estratégia de Trump após sua derrota para o democrata Joe Biden. Caos e confusão são a própria estratégia.

Os ataques de Trump às eleições está permitindo que ele semeie descontentamento e dúvidas entre seus apoiadores mais leais, deixando muitos com a falsa impressão de que ele é vítima de votação fraudulenta. Isso não manterá Trump no cargo – Biden será empossado em 20 de janeiro –, mas pode tanto minar os esforços do novo presidente para unificar uma nação fragmentada quanto abastecer Trump em seu próximo empreendimento, seja em outra gestão em 2024 ou uma nova atração midiática.

“Tudo se trata de manter seu ego e visibilidade”, disse Judd Gregg, o ex-governador republicano e senador dos EUA por New Hampshire. “Ele está levantando muito dinheiro e pretende usá-lo.”

Os efeitos da estratégia de Trump já começam a surgir. Uma pesquisa da Universidade de Monmouth, na quarta-feira, mostrou que 77% dos apoiadores de Trump disseram que a vitória de Biden foi fraudada, apesar de evidências em contrário.

“A resposta dele não deve surpreender ninguém. Ele prenunciou isso bem antes da eleição, independentemente dos fatos reais”, disse Tim Pawlenty, o ex-governador republicano de Minnesota. Os fatos neste caso não estão em disputa.

Biden bateu Trump por diferenças confortáveis em Estados-chave, incluindo Michigan e Pensilvânia, obtendo mais do que os 270 votos do colégio eleitoral necessários para ganhar a Casa Branca – ele teve ainda quase 80 milhões de votos em todo o país, um recorde. Funcionários eleitorais federais e estaduais declararam a eleição livre de fraudes, com alguns indo tão longe a ponto de considerar a corrida de 2020 a mais segura da história dos EUA. Trump respondeu demitindo Chris Krebs, o principal funcionário de segurança eleitoral do país, que atestou a integridade da votação.

Trump há muito adora borrar as linhas entre a verdade e a ficção e tirar vantagem da confusão que isso cria. Alguns pequenos veículos conservadores da mídia se recusaram a aceitar a vitória de Biden e viram seu público crescer. “É uma política dura e cínica”, disse Mike Murphy, um veterano estrategista republicano que apoiou Biden.

* É CHEFE DO WASHINGTON BUREAU, COBRE A  CASA BRANCA E A POLÍTICA PARA A ASSOCIATED PRESS DESDE 2007

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