AP Photo/Carolyn Kaster
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Análise: Os desafios de Biden para América Latina

Região compõe encadeamento de temas que são fundamentais para os interesses dos EUA no contexto global – como meio ambiente, migração e contenção do poder chinês

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 15h00

Uma das indagações que perpassa a mente dos líderes dos países latino-americanos é o de tentar decodificar o grau de importância que a região terá no mapa cartesiano da política externa do futuro governo dos EUA. O presidente eleito, Joe Biden, repetirá os desatinos da administração Trump para a região ou oferecerá uma nova perspectiva sem ameaças militares (invadir a Venezuela) ou escolhas de caráter binário (EUA ou China)? 

Biden herdará um país dividido politicamente e em meio a uma grave crise sanitária. Sua missão será, por um lado, minorar as feridas internas após a fratricida eleição, por outro, recompor o deteriorado arco de alianças dos EUA no mundo. 

A América Latina, em si, talvez não seja estruturalmente importante para o sistema nervoso da diplomacia americana. Porém, a região compõe encadeamento de temas que são fundamentais para os interesses dos EUA no contexto global – como meio ambiente, migração e contenção do poder chinês. 

Nos últimos quatro anos, a região foi instrumentalizada como entreposto da “guerra cultural” ao largo do governo Trump. O combate ao Castro-Chavismo culminou no desmantelamento do reatamento das relações diplomáticas Washington-Havana e ressuscitou o perigoso discurso do uso da força militar – como meio de coerção – contra alguns governos na região. A relação EUA-América Latina mais recuou do que avançou. 

A Venezuela tornou-se o alvo predileto do governo Trump. Não cabe aqui negar, por obviedade cristalina, o tremendo déficit democrático gerado pelo governo autoritário de Nicolás Maduro. Mas, a invenção de Juan Guaidó – o autoproclamando presidente venezuelano – e a fracassada tentativa de implosão o regime podem vir a ser contabilizados como um dos maiores erros da política externa dos EUA para a América Latina desde a invasão da Baía dos Porcos, em 1961. 

Se o tecido social venezuelano já estava dilacerado, a administração Trump – com a ajuda dos governos do Brasil e da Colômbia – contribuiu para o recrudescimento do regime chavista. O fracasso de sua abordagem política e a incapacidade do Grupo de Lima de oferecer soluções razoáveis para o impasse interno, somente ampliou o fosso e de quebra permitiu que a Rússia consolidasse a sua mão sobre Caracas. O resultado da eleição para a Assembleia Legislativa venezuelana, com maciço boicote da oposição, é puro reflexo daquilo que já estava ruim piorar ainda mais.  

Para agravar a conjuntura continental, a falecida OEA faleceu novamente graças a obra do governo Trump – com o beneplácito dos governos mais afoitos do hemisfério. Ao invés de atuar como instituição proponente de soluções e construtora de diálogos para dirimir conflitos, o que vimos foi a cooptação da OEA como um instrumento de pressão ideológica – não irei me debruçar aqui sobre o papelão vexaminoso exercido pelo secretário-geral da organização no caso boliviano.

Contudo, a pedra de toque para colocar de joelhos o sistema multilateral hemisférico foi a ruptura do consenso em torno da escolha do presidente do BID. Os países latino-americanos viram a administração Trump, com a dedicada ajuda do governo brasileiro, perder o único posto multilateral a eles confiado – e tudo isso como parte da “guerra cultural”.

No afã de deter a expansão dos interesses da China na América Latina, o governo Trump não ofereceu alternativas substantivas economicamente aos países da região. Ampliar investimentos, absorver a pauta exportadora ou aprofundar as relações comerciais com os países latino-americanos nem sequer compôs a sua estratégia. O que se viu foi a ameaça da construção do muro junto à fronteira do México, açodamento na política de imigração e a imposição de barreiras tarifárias contra vários setores produtivos dos países da região – e entre os quais o próprio Brasil, apesar de toda a sua subserviência.

Se o governo Trump errou a mão em pautas como o multilateralismo regional, política migratória, o dilema venezuelano e o grave cochilo com a destruição do meio ambiente, a vindoura administração Biden estará diante de importantes desafios diplomáticos junto aos países latino-americanos.  

Será necessária uma estratégia de reversão de boa parte dessas políticas. O comércio não pode ser assimétrico, os países latino-americanos não podem ser postos como reféns de uma escolha binária entre EUA e China, e o lançamento de uma vigorosa agenda global voltada para o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente requer um diálogo profícuo com os países amazônicos – e não a sua exclusão. Em sua maioria, os países latino-americanos respiram aliviados com a chegada de Joe Biden à Casa Branca, porém, a construção de uma agenda positiva para a região depende, fundamentalmente, do como Washington fará esse trabalho de reversão e a partir de que parâmetros deseja sedimentar as suas relações com os países do hemisfério. 

* HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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