Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
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Análise: Os desafios internos de Joe Biden

Sucesso na crise da pandemia será crucial para a agenda da economia nos primeiros dias de governo

Rubens Barbosa*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 13h00

Joe Biden assume a presidência dos EUA com o país mais dividido desde a Guerra Civil. Nos últimos 30 anos, o país, branco e calvinista, transformou-se em uma nação multicultural e multirracial. A divisão deixou de ser apenas política, entre os partidos Democrata e Republicano, trazendo à tona um processo de polarização racial, religiosa e social com ações cada vez mais radicais. Esse é o pano de fundo dos desafios que Biden terá de enfrentar com um discurso inicial de união e de superação das feridas criadas durante a disputa eleitoral.

Não vai ser fácil enfrentar esses desafios porque as políticas que o novo presidente pretende adotar são diametralmente opostas ao nacional populismo trumpista e despertarão reação por parte dos fanáticos apoiadores do ex-presidente.

O sucesso na crise da pandemia será crucial para a agenda da economia nos primeiros dias de governo. Os problemas de saúde e econômicos serão enfrentadas pelo anunciado pacote de US$ 1,9 trilhões que procurará acelerar a vacinação, melhorar o sistema de saúde e injetar recursos emergenciais para os mais afetados pela crise. O objetivo declarado é a volta do crescimento (3-4% contra menos 4,3% em 2020), a redução do desemprego (7,6%), da desigualdade de renda, aceleração das obras de infraestrutura.

A politica de reconstrução da economia dos EUA passa pela criação de postos de trabalho bem pagos (prevê-se o aumento do salario mínimo para US%15.00 por hora), pelo combate às mudanças climáticas e pela promoção da igualdade racial, além do apoio ao setor industrial com uma politica de substituição de importações (Buy American) que pode se chocar com a OMC por eventuais medidas protecionistas.

Essas políticas deverão ter forte impacto macroeconômico, visto que o déficit público dos EUA passaria a 25% do PIB. Outro desafio inicial será desfazer as políticas internas e externas adotadas por Trump com grande efeito negativo, como, por exemplo, a ineficiência e o negacionismo no combate a covid-19, as restrições à imigração e às politicas energéticas e de meio ambiente.

A mudança de clima (new green deal) está no centro das medidas econômicas com repercussão na política interna (ênfase na energia renovável e não no petróleo) e externa (adesão ao Acordo de Paris e medidas de proteção a florestas tropicais, em especial a Amazônia, com repercussão no Brasil).

O problema político herdado por Biden não é menor do que os da área econômica e social. Sem falar nos da política externa e da China.

Embora os Democratas tenham o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, o Partido Republicano vai repetir – se não reforçar – a obstrução às medidas propostas pelo novo governo, sobretudo nas áreas de saúde (Obamacare), racial, imigração e meio ambiente. Por outro lado, terá de lidar com o grupo mais progressista dentro do Partido Democrata (Bernie Sanders e Elizabeth Warren), cujas demandas terão de ser atendidas, sob pena de perda de apoio para outras medidas propostas.

A questão imediata vai ser como lidar com o demorado exame da proposta de impeachment no Senado, o que poderá dificultar a aprovação do programa do novo governo. Não há certeza dos votos de 17 senadores republicanos para completar o processo. Se não tivesse havido a insurreição contra o Congresso, com seus 74 milhões de votos, Trump seria o líder natural da oposição, apesar de tudo.

Com a divisão do Partido Republicano, o establishment conservador se encarregará de impedir que ele possa apresentar-se como candidato em 2024. Interessará a Biden ter um mártir nacional populista, com direitos políticos ou não, encabeçando a oposição, visto que o afastamento da figura polarizadora não apagará a polarização e a divisão?

*Foi embaixador do Brasil nos EUA e é presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior

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