Milton Michida/AE
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Análise: Os Estados Unidos vão manter seu curso

Brasil é o principal parceiro americano na área de Defesa na América do Sul, e militares têm preservado aspectos técnicos e profissionais

Roberto Godoy*, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 08h05

Os EUA e o Brasil têm dezenas de acordos na área de Defesa. Eles começaram a ser firmados em 1947, logo após a 2.ª Guerra, e isso nunca mais parou. O Brasil é o principal parceiro americano na área de Defesa na América do Sul. Nunca houve outro maior, nem tão alinhado. Curiosamente, o que os militares têm feito dos dois lados é preservar o aspecto técnico e o aspecto profissional.

Há a política feita pelo Departamento de Estado, e o Departamento de Defesa é alinhado com ela, mas não é um agente dessa política. Por isso, qualquer resultado da eleição não muda muita coisa na relação entre Brasil e Estados Unidos. Em todo caso, trocas de governo costumam envolver mais negociação, mais acordos.

O Brasil recebeu muitos equipamentos, muitos deles novos, como aviões, tanques e blindados, logo depois da 2.ª Guerra. Ao longo do tempo, essa prática foi mantida, mas não com a mesma intensidade. No período de 1974 a 2007, foram feitos investimentos muito pequenos, pontuais.

Nesse período de seca nas compras, a Marinha brasileira, por exemplo, trocava um navio velho por um menos velho. Isso terminou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2007, quando ele decidiu começar a investir em equipamentos. O importante é que, durante esse período, como havia pouco dinheiro, o que os militares fizeram foi investir na qualificação de pessoal. Mandar gente para fazer cursos no exterior.

Os EUA receberam centenas de oficiais brasileiros que foram treinados em instituições americanas. Esse tipo de alinhamento se mantém até hoje. Há dois ou três anos, o Brasil recebeu uma doação de material americano, que incluía 120 canhões e 200 blindados de comando. A principal frota de blindados do Brasil, M-113, é toda americana. O Brasil recebe e moderniza, treina seu pessoal para fazer essa atualização tecnológica. A relação costuma ser muito boa.

Mas, com o governo republicano, o desenho estratégico regional mudou. Os EUA têm hoje, além do Brasil, um grande parceiro no continente, que é a Colômbia. Por causa dos 50 anos de guerra contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o país recebeu muito material americano. Foram US$ 7 bilhões, praticamente só dos EUA. E há um estorvo na região, do ponto de vista americano, que é o fato de que a maior reserva de petróleo do mundo está na mãos de Nicolás Maduro.

Até agora, Trump tem sido desaconselhado a iniciar uma ação contra a Venezuela, mas seu sonho é prender Nicolás Maduro e invadir o país com uma coalizão envolvendo Colômbia e Brasil. Biden reconhece uma necessidade de mudança na Venezuela, mas acha que deve ser negociada. Intervenção militar só se ocorresse algo muito sério, como a Venezuela receber mísseis de longo alcance iranianos - as conversas sobre isso, aliás, têm se intensificado.

*É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM DEFESA

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